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quarta-feira, 13 de novembro de 2013

Quando eu morrer

(para o Aniceto Vieira Dias e "Liceu" de "N'gola ritmos")



quando eu morrer
eu quero que o n'gola ritmos
vá tocar no meu enterro.

como sidney bechet
como armstrong
eu gostarei de saber

que vocês
tocaram no meu enterro.

lá no céu também há "angelitos negros"
e eu gostarei de saber
que vocês
me tocaram no enterro.

se não puder ser
deixem lá
tocarão noutro lado qualquer
com lágrimas nos olhos
como naquela noite
em casa do araújo
lembrarão o companheiro
das noites de luanda
das noites de boémia
das tardes de moamba.

ah! quando eu morrer
já sabem
quero que o meu caixão
vá no maxibombo da linha do cemitério
quero que toquem
a cidralha
ou convidem a marcha dos invejados.

é assim que eu quero ir
acompanhado da vossa alegria
bebedeiras seguindo o enterro
as velhas carpideiras de panos escuros
quero um kombaritókué dos antigos
que vai ser muito falado.

não convidem mulatas
que sempre estragam tudo
se vierem
não lhes vou rejeitar.
cantem apenas
alguns dos meus poemas
até enrouquecer.

ah! quando eu morrer
eu quero o n'gola ritmos
tocando no meu enterro.


Ernesto Lara Filho




quarta-feira, 22 de maio de 2013

A erosão

a erosão não é
tão rara como parece;
na mais suave das encostas
a erosão acontece.

a erosão não é
tão rara como parece:
em todas as linhas de água
a erosão acontece.

Ernesto Lara Filho

quarta-feira, 6 de março de 2013

A Casa da Velha

para o aníbal melo, pires ferreira
e o zuzarte
companheiros de malange


a casa da velha rosa
fica à entrada do bairro
mesmo ao fundo da rua.

no bairro da estrada
há sempre uma criança
negra
que brinca
nua.

em volta do cercado
que serve de quintal
junto com o muro de adobe
há mandioca e feijão
plantados
sem defesas contra a erosão.

a casa da velha rosa
fica ao fundo da rua.

tem uma sobrinha
a velha
chamada a "palanca negra".

é bela
a sobrinha da velha

é triste 
a casa da velha.

distante da civilização
fica é entrada do bairro
ali ao fundo da rua.

... e há sempre uma criança
negra
que brinca na lama da estrada
nua...

Ernesto Lara Filho




segunda-feira, 8 de outubro de 2012

Regresso

para Alda

um dia 
quando voltares,
não mais encontrarás à tua espera
a nossa casinha de adobe
da rua principal.

quando voltares 
da europa, irmã,
hás-de ver ainda
como a cidade mudou...

(lembras-te das promessas
que fizemos?)

quando voltares
não mais encontrarás poesia
no quintalão do zé guerra
agora transformado
atravessado
assassinado
por uma avenida transversal.

quando voltares
só terás
como deixaste
o mercado municipal.

não mais o candeeiro 
nem a velha lavadeira.
o frederico
esse agora é ointor
do morais pontes.

nem as acácias rubras
hão-de florir
para ti
quando voltares.

"lembras-te da palmeira
do quintal?
foi abaixo com duas machadadas
no tronco..."

um dia
quando voltares,
não mais encontrarás 
a benguela que conheceste
menina ainda
e que aprendeste a amar.

o velho joão correia?
já morreu...

quando voltares, afinal,
não mais encontrarás à tua espera
a nossa casinha de adobe
da rua principal.

Ernesto Lara Filho

sexta-feira, 29 de junho de 2012

Pergunta


para meu pai

tu
que lá em Benguela
tinhas saudades do minho
expressas
em todos os teus olhares saudosos
em todas as conversas

tu
que sempre recordavas lá tão longe
a tua terra distante
o teu portugal de menino

porque
meu pai
me negas o direito simples
de amar a minha terra
a minha angola
porque me negas todos os dias
a todas a horas
o direito sagrado
de ter saudades da minha terra
de olhar com os olhos embaciados
mas contentes
de escrever longas cartas inconsequentes
de ter longas conversas melancólicas
sobre a minha terra desflorada
a minha angola adiada?

serei poeta também
adiado como a minha terra
eu negarei pai e mãe
pela minha terra
três vezes como pedro
o apóstolo
negou cristo
três vezes antes do galo cantar
no raiar da madrugada.

Ernesto Lara Filho

quarta-feira, 14 de março de 2012

Picada de marimbondo

para o Pila
- companheiro de infância

junto da mandioqueira
perto do muro de adobe
vi surgir um marimbondo.

vinha zunindo!
cazuza!
vinha zunindo!
cazuza!

era uma tarde de janeiro
tinha flores nas acácias
tinha abelhas nos jardins
e vento nas casuarinas,
quando vi o marimbondo
vinha voando e zunindo
vinha zunindo e voando!

cazuza!
marimbondo
mordeu tua filha no olho!

cazuza!
marimbondo
foi branco quem inventou...

Ernesto Lara Filho

quarta-feira, 16 de novembro de 2011

Poema da manhã

os nossos filhos
negra
hão-de trazer as ambições estampadas
nos olhos claros.

os nossos filhos
negra
hão-de trazer a vida à flor da pele escura.

os nossos filhos
negra
hão-de gargalhar o seu desprezo pelas universidades da europa
e hão-de rir-se dos que ficarem atrás nas classificações.

Os nossos filhos
negra
hão ser belos
hão-de trazer nas veias o sangue mais puro e mais vermelho
das raças de angola
e os seus peitos
hão-de chegar primeiro nas competições desportivas
da américa, da europa e do mundo.

os nossos filhos
negra
serão os construtores, os engenheiros, os médicos, os
cientistas do mundo que vem

eles pisarão quem se lhes atravessar na frente
eles hão-de fazer soar os “booguie-wooguies” de armstrong e peters
nas “boites” de paris, londres, moscovo e nova iorque
e não mais terão lugares secundários nas bichas de autocarros de joburgo.

e principalmente
negra
os nossos filhos

chegarão sempre primeiro
nas competições espirituais e desportivas
da europa
da américa
e do mundo.

e principalmente
negra
eles serão
os nossos filhos.

Ernesto Lara Filho

segunda-feira, 1 de agosto de 2011

Sempre

estar calmo
como o mar angolano
antes das calemas traiçoeiras.

estar calmo
como as florestas angolanas
antes das queimadas?

estar calmo
como a manada de pacaças
antes do tiro do caçador.

estar calmo
como antes destes tempos
estávamos
antes dos tiros traiçoeiros
da morte espreitando nas bermas das estradas.

estar calmo
tranquilamente sentado à porta da minha casa
como quando era menino
antes do desastre

estar calmo
sempre calmo
aterradoramente calmo
subterrâneos de raiva fervendo no meu sangue.

Ernesto Lara Filho

segunda-feira, 28 de março de 2011

Seripipi de Benguela

eh! seripipi de Benguela
escuta aquela canção.

parece pardal de Luanda
cantando na escuridão.

levanta voo, seripipi
do galho desta prisão.

leva no bico uma esperança
ao ninho do teu irmão.

Ernesto Lara Filho

segunda-feira, 29 de novembro de 2010

As acácias da minha rua

cortaram as acácias rubras
da beira da minha rua.

cortaram as coisas mais lindas
da pobre da minha rua.

como às crianças loiras
cortam madeixas douradas…

… assim fizeram à rua.

pobres acácias tão rubras
da minha beira da rua.

ficou só a terra nua
ficou só a terra nua

pobres acácias tão lindas
da beira da minha rua…

Ernesto Lara Filho

sexta-feira, 6 de agosto de 2010

Era no tempo dos tamarindos

era no tempo dos tamarindos

meu pai sempre acordava p'la manhã
e ia cantando pró quintal
enquanto fazia a barba
debaixo do caramanchão
da buganvília cor-de-violeta.

era no tempo dos tamarindos.

zenza niala vinha entrando na cancela
à cabeça a quinda carregadinha de fruta
sempre cumprimentava minha mãe:
- "sápere, dona!"
minha mãe respondia:
- "olá"
ela aganchava no chão
destapava a quinda
e por sob as folhas frescas de mamoeiro
mostrava papaias e pitangas saborosas.

às vezes trazia fruta-pinha e sápe-sápe.

era sempre o mesmo dialogo.
minha mãe. "chingamin?"
zenga niala do chão sorria
mostrava os dentes de marfim
e respondia:
- "meia-cinco, sinhóra!"

era no tempo dos tamarindos.

e havia "bigodes" e " bicos de lacre"
cantando nas acácias do quintal.

depois zenza niala ia embora,
as ancas baloiçando
a quinda na cabeça.

era no tempo dos tamarindos em flor.

Ernesto Lara Filho

sexta-feira, 7 de maio de 2010

Caminhos de musseques

caminhos de musseques
lá onde a areia entra pelos sapatos
daqueles que têm sapatos
lá onde o sol se filtra pelas fendas
pelos buracos dos pregos
dos tetos de zinco.

caminhos antigos.
caminhos antigos como o mundo.

a cidade empurrou os musseques
e o cacimbo caiu mais de mansinho
escondendo as figuras esguias
e os rostos de chumbo.

onde a esteira cobre o chão varrido todas manhãs
onde a fuba substitui todas as claridades
onde a cerveja escorre pouco
porque não há dinheiro de comprar.

caminhos antigos
onde a electricidade começa a entrar no alto dos postes
onde o transístor começa a fazer circular
“ideias estrangeiras”
onde os motores dos carros
acordam as madrugadas das crianças
que antigamente ouviam os passarinhos.

as fendas, os muros, os tetos
os buracos dos caminhos
esboroando-se no passado
alcatrão penetrando e desmentindo a mudança
cimento e cal erguendo os muros cinzentos das fábricas
saias lutando contra os panos das velhas
telefone até.

nas almas… um grande vazio
preenchido pelos merengues que vêm de fora.

lá – caminhos da vida
lá no mato. lá no campo. lá na floresta. lá no estrangeiro
lá onde se nasce, vive e morre todos os dias
com kambaritókué, ou sem ele
com um lençol simples ou uma vala comum
morrendo apenas é que tudo acaba.
a vida tem de ser dignamente vivida.
Vamos juntar as nossas cobardias
os nossos sofrimentos
as nossas ansiedades
nossas angústias
nossos sorrisos
nossos sarcasmos
a nossa coragem
nossas vidas.
Vamos
lá – no musseque – areiais vermelhos
onde passam os caminhos da vida
e vamos
dizer
corajosamente
às crianças que esperam o nosso exemplo
que este quintal
tem de ser estrumado com sangue
adubado de sofrimento
cultivado com as nossas dores
mangueiras
anoneiras
gindungueiros
frutificando ao sol e ao luar
para quê dizer mais versos
que só o povo entende?

Ernesto Lara Filho

sexta-feira, 1 de janeiro de 2010

Maracujá

um dia
o pé de maracujá
que eu plantei no quintal
cresceu e floriu.

eu nunca tinha visto
a flor do maracujá.

juro por deus que nunca vi
coisa mais linda no mundo
do que a flor violeta
do pé de maracujá
que eu plantei
na cerca do meu quintal.

um dia
o maracujá
que eu plantei no meu quintal
cresceu
e floriu…

Ernesto Lara Filho

sexta-feira, 28 de agosto de 2009

Sinceridade

sou sincero
eu gostava de ser negro
gostava de ser um joe louis, um louis Armstrong,
um harrison dillard, um jess owens,
um Leopold senghor, um aimé cesaire, um diopp
gostava de ritmar
de dançar como um negro.

sou sincero
eu gostava de ser negro
vivendo no harlem,
nas plantações do sul
trabalhando nas minas do rand
cantando ao luar da massangarála
ou nas favelas da Baía.

eu gostava de ser negro.

e sou sincero…

Ernesto Lara Filho

sexta-feira, 3 de julho de 2009

Na noite dos cazumbis

as cubatas de himane arderam ontem
foi a grande queimada que calupéte atiçou
no capim velho
amanhã nascerá das cinzas o capim novo
com que apascentaremos o gado.

himane reconstruirá o seu quimbo
na encosta da montanha de Sámuel
bem longe da estrada
perto das sombras grandes da floresta
lá onde passam regatos tranquilos
os passarinhos cantam
e a madeira e os frutos silvestres abundam.

n’dove canta debruçada sobre a lavra
os seios pendem-lhe flácidos sobre a terra estrumada
pelo seu suor
o filho chora junto da cabaça de milho
a terra está molhada das primeiras chuvas
o milho está pronto para cair nas lavras
que n’dove preparou.

este ano vai ser um ano de grande para o povo n’dumbe.

Na vila
o senhor administrador já está a cobrar os impostos
já mandou o cipaio tembo avisar os sobas
gunga foi no contrato
foi para as fazendas de sisal da ganda
os filhos ficaram com a irmã mais velha
os bois foram vendidos e a lavra abandonada.

amanhã
humane recomeçará a construir as cubatas incendiadas
isto se não for para a cidade
ser servente de pedreiro
lá nessa cidade onde se constroem as casas de cimento armado
a tocar as nuvens do céu
lá nessa cidade de que falou o primo n’zimbi
lá onde as luzes apagam as escuridões
povoadas de cazimbis
lá onde as queimadas não aparecem
alterando os ciclos e as estações.


Ernesto Lara Filho

quarta-feira, 4 de março de 2009

Elisa Mulata

quando Elisa, a Mulata
de olhos brilhantes como dendem
veste de negro
seu corpo parece uma escultura quioca
escurecida pelo tempo.

quando Elisa, a mulata
veste de negro
e samba sozinha no meio da sala
de um cabaret
ao som de uma orquestra de mambos
renasce uma rainha
de qualquer noite africana.

Elisa, a mulata ordinária
de olhos brilhantes da cor do dendem
de corpo brilhante, coleante de cobra
de lábios vermelhos e grossos
parece uma escultura quioca
reminiscência de uma qualquer noite africana
perdida nas minhas noites da Europa.

rainha
de uma qualquer noite africana.

Elisa
mulata ordinária
Elisa de Luanda
perdida nas noites
de um cabaret de Lisboa

Elisa
a que quando veste de negro
parece uma escultura quioca
enegrecida pelo tempo.

Ernesto Lara Filho (1932-1977)

Irmão de Alda Lara, é considerado um dos maiores poetas angolanos. Jornalista, destacou-se também na crónica, tendo ficado famosa a sua coluna de crónicas “Roda Gigante” no jornal de Angola, na década de 50. Regente agrícola na Junta de Exportação de Cereais foi despedido tendo passado o exílio na Europa, onde chegou a ganhar a vida como empregado de restaurante. Publicou “O canto do marimbondo”, “Seripipi na gaiola” e “O canto do matrindinde”. Foi co-fundador, em 1975, da União de Escritores Angolanos.