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segunda-feira, 19 de julho de 2010

Kicóla!

nesta pequena cidade,
vi uma certa donzella
que muito tinha de bella,
de fada, huri e deidade –



a quem disse:- “minha q’rida,
peço um beijo por favor;
bem sabes, oh meu amor,~
q’eu por ti daria a vida!”



- nquâmi-âmi, ngua – iame
“não quero caro senhor”
disse sem mudar de cor;
- macûto, quangandall’ami.
“não creio no seu amor”.
eu querendo-a convencer,
- muámôno!? – “querem ver!?”
exclamou a minha flor,
- “o que t’assombra donzella
n’esta minha confissão?”
tornei com muita paixão.



olhando sério pr’ella –
- “não é dado” – continuei –
“o que se sente dizer?!...
sem ti não posso viver;
só contigo f’liz serei.”
- kiri ki amonequê,
“ninguém a verdade falla”
ósso a kua-macuto – âla!
“toda a gente falsa é!”
emé, ngana, nguixicána,
“aceitar não sou capaz”
o maca mé ma dilage,
“ a sua falla que engana!”
- oh! q’rida não há motivo
para descreres de todos;
cada qual tem seus modos,
eu a enganar não vivo
- eie ngana úarimûca,
“o senhor é muito esperto”
queria dizer, decerto;
uzuêla câlá úa cûca!



“falla como homem d’edade!



Cordeiro da Matta

segunda-feira, 29 de março de 2010

Cambúta

não é feia, nem é linda,
mas tem o encanto ideal,
a graça attrahente, infinda
que enlouquece a um mortal.

nada possue de galante
de divino ou seductor;
porém, um todo que encante,
como o seu, não há melhor.

é cambúta, isto é, baixinha;
não sendo horrenda, nem feia,
e posto seja negrinha
tem as formas d’uma hebreia.

seus olhos claros, brilhantes
derramam uns taes fulgores,
que dois astros fulgurantes
não lhes ganham em primores.

quando airosa a vejo andar,
o seu corpo pequenino
de plástica singular
tem um quê tão peregrino,

que a alma logo s’invade
d’uma estranha sensação
e palpita o coração
de febril ansiedade…

a antiga esthetica grega
que pelo bello morria,
se visse este raro specimen
uma estátua lh’esculpia!

Cordeiro da Matta

quarta-feira, 2 de dezembro de 2009

A minha sina

é sem norte a minha vida,
e n’um mar revolto vivo;
escravo de dura lida
eu sou a tudo captivo;
atraz do ignoto corro,
e na lucta eu soffro, eu morro



Cordeiro da Matta

sexta-feira, 9 de outubro de 2009

Negra!

I
negra! negra! como é a noite
d’uma horrível tempestade,
mas, linda, mimosa e bella,
como a mais gentil beldade!
negra! negra! Como a aza
do corvo mais negro e escuro,
mas tendo nos claros olhos,
o olhar mais límpido e puro!

negra! negra! como o ébano
sedutora como Phedra,
possuindo as celsas fórmulas,
em que a boa graça medra!
negra! negra!... mas tão linda
co’os seus dentes de marfim;
que quando os lábios entreabre,
não sei o que sinto em mim!...

II

só, negra, como te vejo,
eu sinto nos seios d’alma
ardêr-me forte desejo,
desejo que nada acalma.
se te roubou este clima
do homem a cor primeva;
branca que ao mundo viesses,
serias das filhas d’eva
em belleza, ó negra, a prima!...
gerou-te em agro torrão;
s’elevar-te ao sexo frágil
temeu o rei da criação;
é qu’és, ó negra creatura,
a deusa da formusura!...



Cordeiro da Matta

sexta-feira, 23 de janeiro de 2009

Sedução

em manhã fria, nevada
dessas manhãs de cacimbo
em que uma alma penada
não se lembra de ir ao limbo,
eu vi formosa, correcta,
não sendo europeia dama
a mais sedutora preta
das regiões da Quissama

mal quinze anos contava
e no seu todo brilhava
o ar mais doce e gentil!
tinha das mulheres lindas
as graças belas, infindas
de encantos, encantos mil.

nos lábios, posto que escuros,
viam-se-lhes risos puros
em borbotões assomar.
tinha nos olhos divinos
revérberos cristalinos
e fulgores… de matar!

radiava-lhe na fonte
- como em límpido horizonte
radia mimosa luz,
da virgem casta a candura
que sói dar à formusura
a graça que brota à flux!...
embora azeitados panos
lhe cobrissem os lácteos pomos
denunciavam os arcamos
de dois torneados gomos


Cordeiro da Matta (1857-1894)

Joaquim Dias Cordeiro da Matta nasceu no Icolo e Bengo. Nunca frequentou escola alguma de nível secundário, mas tornou-se um autodidacta em vários ramos da cultura. Entre as suas obras de carácter literário destacam-se “Delírios” (poesia) e “Filosofia popular em provérbios angolenses”. Estudou a cultura do povo kimbundu tendo publicado um dicionário kimbundu-português.