sexta-feira, 25 de abril de 2014

Poemas para um tocador de quissanje

III

... e vinham
das distâncias 
eram das terras da lunda
 e os regressados das ilhas
e as crianças que não iam
muito p'ra além dos luandos
e das portas
e eram velhas
cachimbando
junto às fogueiras
sem lenha

e vinham todos...

alongava-se na noite
canto de escravos passados
vozes de contratados
o teu quissanje dolente...

IV

... a velhas já não choravam
filhos perdidos no mar
e as crianças não choravam
a fome dos ventres grávidos 
e as mulheres já não choravam
homens levados de noite
em cargas silenciosas...
e as lavras já não choravam
e as estradas
 e os mares
suor dos ombros cansados
já não choravam
já não choravam
já não choravam
calavam.

V

havia conchas de mar
múcuas e pitangueiras
falas de gentes quiocas
vozes de terras ganguelas
gritos de homens cuanhamas
o amor de jovens luenas
e lendas de mucubais
inconformadas presenças
pairando em cada silêncio
em cada vagem que seca
como promessas de pão feitas fome
na realidade diária

havia
havia
havia
humanidades de espera
como promessas de pão.


Costa Andrade

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