sexta-feira, 18 de abril de 2014

Marimba

à memória do cego da Baixa

Dedicados a Óscar Ribas


marimba tocada
por dedos tão dextros
marimba que vibra
que chora e não fala
que lembra o lamento
da hiena na selva
e o grito selvagem
do negro no quimbo.
marimba saudosa
nos dedos do cego
pedindo uma esmola,
de roupa estragada
já velho e sem dentes,
marimba do canto
da paz e da guerra
que lembra o passado
dos olhos a verem,
da mão que não treme
da fala serena...
marimba que recorda o passado
e vive o presente
deixa a saudade no tempo futuro!
e os dedos tão dextros
tão cheios de calos
nas mãos que a correm
marimba não fala
o homem não vê!
mas marimba recorda
os tempos passados...
os tempos passados...
marimba recorda
e o pobre ceguinho
tocando a marimba
chora com ela
e recorda também
o tempo passado...
chorando, também
eu tenho saudades
do pobre ceguinho
tocando a marimba
os olhos sem vida
a voz sem expressão...
recordo... recordo... e choro com ele
nas horas amargas
marimba não fala
mas faz recordar.

Ruy Burity da Silva

3 comentários:

NAMIBIANO FERREIRA disse...

Posso levar o poema para a ondjira?

kandandu

kinaxixi disse...

Claro que sim.

Um abraço

Jasmine Oba disse...

e lindissimo este poema obrigada por esta publicacao! FASCINANTE!