quarta-feira, 16 de abril de 2014

Marasmo

na barca desta dor
ando embarcada...

senhora do navio,
da jornada,
e de quantos passaportes desejei,
só recebi no cais,
por lei da altura,
a bênção do desprezo e da aventura!

nossa senhora da loucura
é quem me guia...

e em cada dia passado,
esperei sentada na proa,
um sinal da sua graça...

pelas margens me acenaram
os portos da redenção...

pelos cabelos da noite,
as sereias entoaram
gemendo, a sua canção...

meus ouvidos, surdos foram...
a todos disse que não...
que nesta rota
de um dia,
é só nossa senhora da loucura
que me guia...

mas vai o tempo passando...
nem sinal da sua mão...

baloiça um vento perdido,
o meu navio esquecido,
nem sombra do seu aceno!...

ó senhora da loucura!
é tão triste o vento ameno...
ó senhora da loucura
rogai pelo meu navio
se cansado se atormenta
nesta rota sem desvio...

mandai-nos um temporal,
um rochedo,
uma desgraça,
qualquer coisa que desfaça
esta serena agonia...

ó senhora da loucura,
rogai por mim,
que me afundo
neste mar de calmaria...
não foi por ele que parti,
sem saber de sul nem norte,
quando apenas recebi
no cais,
e por lei da altura,
a bênção salgada e forte,
do desprezo e da aventura!...


Alda Lara