sexta-feira, 14 de março de 2014

O Hiporinopótamoceronte (ficção cientifica)

de pernas cruzadas
no centro da melhor esplanada
gozando o melhor sol
o melhor uísque
a melhor miúda 
a melhor música,
estava sentado
o hiporinopótamoceronte.

(evidentemente, ninguém dava por isso,
a não ser o poeta transparente
sentado de fronte...)

e palrava
como insólito papagaio,
ou gaio ou papa
heteróclito,
assim:
"eu sou o hiporinopótamoceronte...
tenho dito!"
e todos lhe faziam uma vénia.
À excepção do poeta maldito
que não era dessa comédia...

(a bem dizer,
pertencia à tragédia,
e estava ali subversivamente escondido
sociologando...)

e quando passou
o coxo-marreco-vesgo-e-perneta,
a única muleta fez eco...
à interrupção, 
apressou-se o patrão curvado,
e o criado mais curvado,
a sacudir
o coxo-marreco-vesgo-e-perneta
na primeira valeta que ia a sair
mesmo rente ao passeio.

e nisto veio, de frente,
um policia e, záz!,
cacetête na tête
do coxo (está claro...),
de tal maneira
que este, de tão escuro o céu
cheio de estrelas,
julgou que findara o dia
e, por engano... adormeceu.
sono
com tanta sorte,
que uma carrinha ligeira
e discreta 
logo o deixou na lixeira
ao abandono...

já ia o hiporinopótamoceronte
naquela parte farfalhuda,
lacrimejante e bifronte...
... de dono:
amamo-nos uns aos outros
tal como cristo nos ensinou
há centénios...

nisto,
o poeta vomitou
e accionou a máquina de estoiros
(em sonho) e viu-se
o hiporinotámoceronte
acompanhado de todos os tesoiros,
a mulher, as 3 amantes
(a loira, a negra, a mestiça)
4 carros, 1 iate, o guarda-costas,
2 galgos, 1 buldogue de peliça,
1 banco-sem-ser-pra-sentar,
100 polícias mais ou menos analfabrutos,
e uma farmácia completa de amostras
com 5 médicos e 5 enfermeiras,
subir ao céu, fulminadíssimo
por um raio - apoplexia,
que lhe deu, ao meio-dia...

piedosamente,
várias confrarias do sítio
juntaram-lhe a merda dos miolos e das tripas,
os colares, as ordens, as bandas e os fraques,
e depositaram a mistura na melhor
e mais paramentada igreja...

(mas, nesta altura,
e sem que ninguém o veja,
já o poeta transparente
se tinha safo...).

António Cardoso



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