quarta-feira, 19 de março de 2014

Luanda da minha infância

onde estão os tesouros da minha infância?
ó vós, construtores da grande cidade,
que fizestes das riquezas
do meu sagrado mundo de criança?

onde estão o arco e o freio,
com que percorria as ruas
sem sofisma nem receio?
(exímio condutor de veículo,
virgem de acidentes de viação.)
numa manhã, o ferro-velho veio,
matulão, o terror dos monandengues,
e roubou-me o arco e o freio.

minha bola de meia, que joguei nos muceques,
driblando os meus adversários,
metendo golos célebres e vários
na baliza do joão cambuta...
quem era esse trapeiro que, certo dia, à bruta,
pegou na bola - minha relíquia -
e a desfez entre os trapos da sua negociata?
(perante a ambição dos grandes,
todo o sonho infantil se desbarata...)

e o meu papagaio verde,
o avião onde voei sem medo,
com os pés bem presos ao solo
e o espírito vogando pelos espaços,
- quem foi que o desprendeu dos meus confiantes dedos
e o rasgou em pedaços?

que saudades da minha luanda de criança!
vejo-me agora estranho
nesta cidade nova em que me movo,
onde a alma não sente nada o que a vista alcança.
quem foi que destruiu e apagou
das raízes da terra, da memória do povo,
a luanda da minha infância?

Geraldo Bessa Victor

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