segunda-feira, 31 de março de 2014

Infâncias

gosto de mãos rupestres
- de infâncias,
de me dobrar e tombar
em risos e estigas que a minha rua já não tem.
chorar - escrevendo um livro depois apagado.
rir - lendo memórias apagadas.

a sujidade da infância tem um cheiro
de barro
e trepadeiras poeirentas.
quando me sujo de infâncias
espirro
um sardão enorme
- e um gato dançado
pelo tiro da minha pressão-de-ar.

não quero apenas carícias
nas cores desse sardão ensolarado.

sujo de infância
quero pôr pedido-desculpa
na vida do gato vesgo...

Ondjaki


domingo, 30 de março de 2014

Bacia do Okavango, Cuando Cubango

sexta-feira, 28 de março de 2014

Múcuas

múcua:
fruto mácula
veludo a pingar
mágoa negra
lágrima seca a chorar
escorrendo nos braços
mãos-imbondeiro
abertas aos céus
anunciando a crecer
desespero da terra
povo inteiro
múcua, mákua, mágoa
lágrima negra imbondeiro
a chorar

Namibiano Ferreira

quarta-feira, 26 de março de 2014

Pássaros de sombra

pássaros de sombra
em céu azul fugindo
se vestem de nuvem
e
cobra preta da noite
em campo de algodão
se tinge de luar
amada
orvalho da madrugada
são lágrimas de vento
em teus olhos de capim

Arlindo Barbeitos

segunda-feira, 24 de março de 2014

Nosso olhar

nosso olhar
de par em par
da lágrima

(nosso olhar
tocado de pedras
preciosas)

nosso olhar 
de mão em mão
da vida

David Mestre

domingo, 23 de março de 2014

Parque Nacional da Cameia, Moxico

sexta-feira, 21 de março de 2014

Adivinhação

os leopardos cheiram o medo e as velhas
mastigam com as gengivas afiadas
o teu nome. esperam pela noite
de olhos acesos como tochas
enquanto se passeia no arvoredo
uma sombra desassossegada, como o frio
que te arranha a pele. ofereces

palavras mágicas que se soltam no ar
como rolos de fumo
e murmuras estórias de lugares que desconheces.

mas não fales com voz trémula
e dança devagar à volta dos tições da fogueira
até que se ilumine sob os teus pés o caminho
que os mabecos não percorreram. depois

ouvirás o cantar dos pássaros
sobre os lívidos embondeiros

ou então

dos ramos penderão pela cauda
ratazanas de silêncio...

Jorge Arrimar

quarta-feira, 19 de março de 2014

Luanda da minha infância

onde estão os tesouros da minha infância?
ó vós, construtores da grande cidade,
que fizestes das riquezas
do meu sagrado mundo de criança?

onde estão o arco e o freio,
com que percorria as ruas
sem sofisma nem receio?
(exímio condutor de veículo,
virgem de acidentes de viação.)
numa manhã, o ferro-velho veio,
matulão, o terror dos monandengues,
e roubou-me o arco e o freio.

minha bola de meia, que joguei nos muceques,
driblando os meus adversários,
metendo golos célebres e vários
na baliza do joão cambuta...
quem era esse trapeiro que, certo dia, à bruta,
pegou na bola - minha relíquia -
e a desfez entre os trapos da sua negociata?
(perante a ambição dos grandes,
todo o sonho infantil se desbarata...)

e o meu papagaio verde,
o avião onde voei sem medo,
com os pés bem presos ao solo
e o espírito vogando pelos espaços,
- quem foi que o desprendeu dos meus confiantes dedos
e o rasgou em pedaços?

que saudades da minha luanda de criança!
vejo-me agora estranho
nesta cidade nova em que me movo,
onde a alma não sente nada o que a vista alcança.
quem foi que destruiu e apagou
das raízes da terra, da memória do povo,
a luanda da minha infância?

Geraldo Bessa Victor

segunda-feira, 17 de março de 2014

Jacarandá roxo

jacarandá roxo
cuidado
olho de mocho chocho
que se atreve
no lusco-fusco
leve
a não te ver.

jacarandá roxo
na curva da estrada
inclinada
marcha de teimosia
descida que parecia
depois do chorar
agora para cima
num céu por asfaltar.

(bem te dizia dia
do mês flor
guardo-te sempre
pétala bandeira
começo de um amor)

deixa-me abrir as mãos
aqui em baixo
pétala
no chão
na curva da estrada
inclinada
contra senão.

Manuel Rui

domingo, 16 de março de 2014

Parque Nacional da Quiçama, Luanda

sexta-feira, 14 de março de 2014

O Hiporinopótamoceronte (ficção cientifica)

de pernas cruzadas
no centro da melhor esplanada
gozando o melhor sol
o melhor uísque
a melhor miúda 
a melhor música,
estava sentado
o hiporinopótamoceronte.

(evidentemente, ninguém dava por isso,
a não ser o poeta transparente
sentado de fronte...)

e palrava
como insólito papagaio,
ou gaio ou papa
heteróclito,
assim:
"eu sou o hiporinopótamoceronte...
tenho dito!"
e todos lhe faziam uma vénia.
À excepção do poeta maldito
que não era dessa comédia...

(a bem dizer,
pertencia à tragédia,
e estava ali subversivamente escondido
sociologando...)

e quando passou
o coxo-marreco-vesgo-e-perneta,
a única muleta fez eco...
à interrupção, 
apressou-se o patrão curvado,
e o criado mais curvado,
a sacudir
o coxo-marreco-vesgo-e-perneta
na primeira valeta que ia a sair
mesmo rente ao passeio.

e nisto veio, de frente,
um policia e, záz!,
cacetête na tête
do coxo (está claro...),
de tal maneira
que este, de tão escuro o céu
cheio de estrelas,
julgou que findara o dia
e, por engano... adormeceu.
sono
com tanta sorte,
que uma carrinha ligeira
e discreta 
logo o deixou na lixeira
ao abandono...

já ia o hiporinopótamoceronte
naquela parte farfalhuda,
lacrimejante e bifronte...
... de dono:
amamo-nos uns aos outros
tal como cristo nos ensinou
há centénios...

nisto,
o poeta vomitou
e accionou a máquina de estoiros
(em sonho) e viu-se
o hiporinotámoceronte
acompanhado de todos os tesoiros,
a mulher, as 3 amantes
(a loira, a negra, a mestiça)
4 carros, 1 iate, o guarda-costas,
2 galgos, 1 buldogue de peliça,
1 banco-sem-ser-pra-sentar,
100 polícias mais ou menos analfabrutos,
e uma farmácia completa de amostras
com 5 médicos e 5 enfermeiras,
subir ao céu, fulminadíssimo
por um raio - apoplexia,
que lhe deu, ao meio-dia...

piedosamente,
várias confrarias do sítio
juntaram-lhe a merda dos miolos e das tripas,
os colares, as ordens, as bandas e os fraques,
e depositaram a mistura na melhor
e mais paramentada igreja...

(mas, nesta altura,
e sem que ninguém o veja,
já o poeta transparente
se tinha safo...).

António Cardoso



quarta-feira, 12 de março de 2014

Drama

o drama é bem maior do que supunha:
é o drama das raízes arrancadas
e dos sonhos esquecidos
pela força não do tempo!

ai o menino de olhos muito abertos
a quem um pai humano segredou
paragens impossíveis de alcançar!

ai o púbere menino que sonhou
por amante a donzela de olhos doces
de meigas falas leves imprecisas
que tinha sempre um carro à porta do colégio!

ai dele! o  pequeno sonhador
que poderia morrer inda menino
os sonhos na mão intactos e o destino
debaixo das longas pálpebras guardado!

ai dele que abriu os olhos e que viu:
seu castelo de poeta; um quarto sem janelas
a cama sem lençóis e num caixote
um monte de papéis cheios de sonhos!

ai dele, que abriu os olhos e se viu:
pobre criança triste, abandonada
mendigando na rua protecções!
ai dele:
antes nunca abrisse os olhos!

Mário António

segunda-feira, 10 de março de 2014

Retrato convencional do poeta

além, longe e sempre,
onde o sol e a lua e o céu
vagos são,
como perfume pairando 
da flor desfolhada,
ou asa riscando
o azul que o céu prende,
rendido ao que o sono ordena
e o sangue implora...
além, longe e sempre,
lá,
frio, lento, exangue,
ei-lo:
intérprete
do que a flor nada promete
sempre.

Tomaz Kim

domingo, 9 de março de 2014

sexta-feira, 7 de março de 2014

Colheitas uterinas

da passagem testemunhei a prova de fogo.
o silêncio material e a riqueza metafísica
na tua lavra, irmã, há colheitas uterinas:

uma nova viagem para que nos regressemos
nós mesmo na indiferença.
liberdade sem medo, conta os dedos da
tua mão procriada, conta p´ra nação
nosso machado secreto canta pela raiz.
- tens essa noção de fogo em tua tabuada

João Tala

quarta-feira, 5 de março de 2014

Estória ou o poeta e a realidade (revisto)

o homem-cobra apareceu
na lagoa do kinaxixi
e, depois de encantar todas as mulheres,
pegou uma boleia prá ilha

o poeta foi atrás dele,
mas foi engolido pela sereia


casou-se e desistiu de escrever

João Melo

segunda-feira, 3 de março de 2014

Poema de papamukar

quem mais que tá andar à toa
sem onde?
quem?

quem mais que tá subir mulonde
nome dele deixando
na boca do kissonde?

quem?
quem mais que tá falar a fala do kingulungumba?
quem?

quem mais que tá no sono
o brilho da enxada
sua terra esperando?
quem?

Jorge Macedo

domingo, 2 de março de 2014

Cachoeiras do Binga, Rio Keve, Cuanza Sul