segunda-feira, 10 de fevereiro de 2014

Sombras

lembro-me dos caminhos que ninguém pisou
ouço vozes longínquas
dos homens que não cantaram
recordo dias felizes que não vivi
existem-me vidas que nunca foram
vejo luz onde só há trevas.

sou um dia em noite escura
sou uma expressão de saudade.

saudade...
- de quê? de quem?

nunca vi o sol
que tenho a recordar?

ah! 
esta mania de imaginar
e de inventar mundos
homens, sistemas, luz!
viver nas coisas, nos rumos fechados
na escuridão das noites
a palpitante existência
dos dias de sol.

esta saudade do nada
esta loucura.

volvamos à realidade
sonhador!

lá vai ele
o  homem
com os olhos no chão.
vê-se-lhe o dorso sob a camisa rota
e carrega o pesado fardo
da ignorância e do temor.

não grita seus anseios
no receio de perturbar um  mundo
que o ofusca
com o falso brilho dos seus ouropéis.

contudo
já foi senhor
foi sábio
antes das leis de kepler
foi destemido
antes dos motores de explosão.

esse mesmo homem
essa miséria...

é dos seus dias de glória
que tenho saudade
saudade sim!

de ti
mulher perdida que cantas
de mim!

de ti
homem disperso que cantas
de mim!

de ti meu irmão
de mim
em busca de todas as áfricas do mundo.

Agostinho Neto

1 comentário:

Majo disse...

~ ~ ~

~ E S T U P E N D O. ~

~ ~ Ótima semana. ~ ~