segunda-feira, 24 de fevereiro de 2014

Regresso

quando eu voltar,
que se alongue, sobre o mar,
o meu canto ao creador!
porque me deu, vida e amor,
para voltar...

voltar...
ver de novo baloiçar
a fronde magestosa das palmeiras
que as derradeiras horas do dia,
circundam de magia...
regressar...
poder de novo respirar,
(oh!... minha terra!...)
aquele odor escaldante
que o húmus vivificante
do teu solo encerra!
embriagar
uma vez mais o olhar,
numa alegria selvagem,
com o tom da tua paisagem,
que o sol,
a dardejar calor,
transforma num inferno de côr...

não mais o pregão das varinas,
nem o ar monótono, igual,
do casario plano...
hei-de ver outra vez as casuarinas
a debruar o oceano...
não mais o agitar fremente
de uma cidade em convulsão...
não mais esta visão,
nem o crepitar mordente
destes ruídos...
os meus sentidos
anseiam pela paz das noites tropicais
em que o ar parece mudo,
e o silêncio envolve tudo
sêde... tenho sêde dos crepúsculos africanos,
todos os dias iguais, e sempre belos,
de tons qusi irreais...
saudade... tenho saudade
do horizonte sem barreiras...,
das calemas traiçoeiras,
das cheias alucinadas...
saudade das batucadas
que eu nunca via
mas pressentia
em cada hora,
soando pelos longes, noites fora!...

sim! eu hei-de voltar,
tenho de voltar,
não há nada que no impeça.
com que prazer
hei-se esquecer
toda esta luta insana...
que em frente está a terra angolana,
a prometer o mundo
a quem regressa...

ah! quando eu voltar...
hão-de as acácias rubras,
a sangrar
numa verbena sem fim,
florir só para mim!...
e o sol esplendoroso e quente,
o sol ardente,
há-de gritar na apoteose do poente,
o meu prazer sem lei...
a minha alegria enorme de poder
enfim dizer:
voltei!...

Alda Lara




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