sexta-feira, 28 de fevereiro de 2014

América

ao sopro das brisas ocidentais
acenam sul-americanas flâmulas
em tom angustiado.

ao norte
a bandeira listada do tio sam
convida os povos à liberdade.

sim, à liberdade
de matar e morrer de fome
nas "democracias" instauradas à força
pelos agentes da cia

à liberdade das fogueiras de racismo
executando a lei de lynch.

ao sopro das brisas ocidentais
sul-americanas flâmulas acenam
em tom angustiado...

mas uma ilha altaneira
no azul-lí da cara´bas
desafia wall street.

Jofre Rocha

quarta-feira, 26 de fevereiro de 2014

Divagando

de ti nada quero além do que me dás
prefiro o teu desprezo livremente
que o amor coagido que me ofertas
mostrando misericórdia por meu coração doente.

quem és tu para te apiedares de mim?
nada és, nada representas. nada vales
mas sendo nada és o mundo sem fim,
és tudo que anseio rainha de meus males...

não passas de nada neste mundo,
mas o nada, nadas sendo, é tudo que desejo.
és tudo, nada, que procuro bem ao fundo
e é a ti, nada, tudo quanto vejo.

Ruy Burity da Silva


segunda-feira, 24 de fevereiro de 2014

Regresso

quando eu voltar,
que se alongue, sobre o mar,
o meu canto ao creador!
porque me deu, vida e amor,
para voltar...

voltar...
ver de novo baloiçar
a fronde magestosa das palmeiras
que as derradeiras horas do dia,
circundam de magia...
regressar...
poder de novo respirar,
(oh!... minha terra!...)
aquele odor escaldante
que o húmus vivificante
do teu solo encerra!
embriagar
uma vez mais o olhar,
numa alegria selvagem,
com o tom da tua paisagem,
que o sol,
a dardejar calor,
transforma num inferno de côr...

não mais o pregão das varinas,
nem o ar monótono, igual,
do casario plano...
hei-de ver outra vez as casuarinas
a debruar o oceano...
não mais o agitar fremente
de uma cidade em convulsão...
não mais esta visão,
nem o crepitar mordente
destes ruídos...
os meus sentidos
anseiam pela paz das noites tropicais
em que o ar parece mudo,
e o silêncio envolve tudo
sêde... tenho sêde dos crepúsculos africanos,
todos os dias iguais, e sempre belos,
de tons qusi irreais...
saudade... tenho saudade
do horizonte sem barreiras...,
das calemas traiçoeiras,
das cheias alucinadas...
saudade das batucadas
que eu nunca via
mas pressentia
em cada hora,
soando pelos longes, noites fora!...

sim! eu hei-de voltar,
tenho de voltar,
não há nada que no impeça.
com que prazer
hei-se esquecer
toda esta luta insana...
que em frente está a terra angolana,
a prometer o mundo
a quem regressa...

ah! quando eu voltar...
hão-de as acácias rubras,
a sangrar
numa verbena sem fim,
florir só para mim!...
e o sol esplendoroso e quente,
o sol ardente,
há-de gritar na apoteose do poente,
o meu prazer sem lei...
a minha alegria enorme de poder
enfim dizer:
voltei!...

Alda Lara




domingo, 23 de fevereiro de 2014

Pedras Negras de Pungo Andongo, Malange

sexta-feira, 21 de fevereiro de 2014

A flor da chuva

... e a flor da chuva no capim
tem mais perfume

abertas bem abertas estão as mãos
para abraçar esta manhã sem nuvens

ontem (não importa já o pôr do sol nas buganvílias)
ontem (murchas estão agora as flores
das coisas que eram coisas nada mais)
ontem havia medo até no caminhar das rolas sobre a areia.

a poesia de hoje é a voz do povo
todo o mundo      o mundo até de algum silêncio persistente
quer romper a mancha que da noite inda nos fala.

oh admirável sangue a pulsar em cada estrela
o sol é negro e ilumina
a imensidão deste perfume
que nos traz a flor da chuva

o sol é negro e brilha dos vulcões
de cada peito independente.

madrugada de fevereiro.

sou angolano!

Costa Andrade

quarta-feira, 19 de fevereiro de 2014

Cansaço

naufraguei
encalhada nos cansaços
que levei para a viagem…

(que rota escolherá
quem conhece a paisagem?)

perdi remos, perdi braços
e os olhos de navegar
e sinto gradados os passos
ao lodo do fundo do mar.

nas manhãs de azul deslumbradas
sobrevoam-me gaivotas assutadas…
mas enrolo-me no meu mistério frio e baço

e fico-me a naufragar…

Amélia Veiga

segunda-feira, 17 de fevereiro de 2014

Voto II

amanhã venderei os meus braços.
e quando nascer a hora de o fazer,
aproximar-se-à a hora de abafar
as pedras do caminho;
quando nascer a hora de o fazer,
não me dêem em troca notas lindas de dinheiro
obtidas a sangue e suor.
eu quero inspiração imensa
que traga às pétalas do caminho
versos de cor verde.

João Maimona

domingo, 16 de fevereiro de 2014

sexta-feira, 14 de fevereiro de 2014

A curva do rio

desces a curva do meu corpo, amado
com o sabor da curva de outros rios
contas as veias e deixas as mãos pousarem
como asas
como vento
sobre o sopro cansado
sobre o seio desperto

parte a canoa e rasga a rede
tens sede de outros rios
olhos de peixes que não conheço
e dedos que sentem em mim a pele arrepiada
d'outro tempo

sou a esperança cansada da vida
que bebes devagar
no corpo que era meu
e já perdeste
andas em círculos de fogo
à volta do meu cercado
não entres, por favor não entres
sem os óleos puros do começo
e as laranjas.

Paula Tavares

quarta-feira, 12 de fevereiro de 2014

Cravos da verdade

que importam as dores duma verdade
sonho-realidade
e a tranca da porta
cravada nos sonhos
e desenhos
que arquitectamos em noite farta?

que importa afinal o ruído inconfesso
nos teus passos esquivos
e furtivos
a ornamentarem horizontes
e fontes
dum qualquer outro verso?

dorido escuto no silêncio das estrelas
o cântico das promessas
que cantaram nossas águas
em noites mornas de conversas
e luas
num ritual de whisky e velas!

que importam os cravos da verdade
e espinhos da saudade?
estacionei numa noite de luar
e astros a sonhar
estacionei falas mansas
e saboreei tuas promessas!

importa a distância no teu olhar?
cruzei as ondas do mar
mergulhei fundo
vasculhei nosso mundo
no teu olhar perdido
vasculhei nosso mundo num coral escondido!

importa tua mala arrumada
e vazia de promessas
a cruzar a estrada
e embalar novas pressas?
importa? sou sono dum tempo distante
e me assentei no cimo da nascente!

Décio Bettencourt Mateus

segunda-feira, 10 de fevereiro de 2014

Sombras

lembro-me dos caminhos que ninguém pisou
ouço vozes longínquas
dos homens que não cantaram
recordo dias felizes que não vivi
existem-me vidas que nunca foram
vejo luz onde só há trevas.

sou um dia em noite escura
sou uma expressão de saudade.

saudade...
- de quê? de quem?

nunca vi o sol
que tenho a recordar?

ah! 
esta mania de imaginar
e de inventar mundos
homens, sistemas, luz!
viver nas coisas, nos rumos fechados
na escuridão das noites
a palpitante existência
dos dias de sol.

esta saudade do nada
esta loucura.

volvamos à realidade
sonhador!

lá vai ele
o  homem
com os olhos no chão.
vê-se-lhe o dorso sob a camisa rota
e carrega o pesado fardo
da ignorância e do temor.

não grita seus anseios
no receio de perturbar um  mundo
que o ofusca
com o falso brilho dos seus ouropéis.

contudo
já foi senhor
foi sábio
antes das leis de kepler
foi destemido
antes dos motores de explosão.

esse mesmo homem
essa miséria...

é dos seus dias de glória
que tenho saudade
saudade sim!

de ti
mulher perdida que cantas
de mim!

de ti
homem disperso que cantas
de mim!

de ti meu irmão
de mim
em busca de todas as áfricas do mundo.

Agostinho Neto

domingo, 9 de fevereiro de 2014

Reserva Florestal do Golungo Alto, Cuanza Norte

sexta-feira, 7 de fevereiro de 2014

Amanhecer na Catumbela

ao joão Vilanova
- ao nosso reencontro

kukiou o dia
no canto de um passarinho do muxitu
ouvi
e sem pressa
como quem sonha inda

vi
no katumbela rio-sacarino
minha mangonha
canoa nas águas lentas
a sensação
de nenhum tempo
estar

e olhei a planície           o vale
lugar onde o canavial é dono
é posse
o seu silêncio
coisas homens
numa canção de abandono

e não ouvi demais
que o canto da madrugada
tinha a voz murmúrio de kaxexe

apenas e 
lentamente
renascia em mim um novo sono

então com de repente
despertei

Arnaldo Santos

quarta-feira, 5 de fevereiro de 2014

Penúltima vivência

quero só
o silêncio da vela.
o afogar-me
na temperatura
da cera.
quero só
o silêncio de volta:
infinituar-me
em poros que hajam
num chão de ser cera.

Ondjaki

segunda-feira, 3 de fevereiro de 2014

Luar na Ingombota

lágrimas de tinta
chora a minha pena
a minha dor de contar...

havia luar, luar,
e o luar nos denunciou,
quando beijei a cruz do teu corpo
e a tua boca exangue,
lá ao pé da trepadeira, aquela mais florida,
que ao luar era uma fogueira de sangue...

não sei se foi amor o que senti
naquela noite, a primeira,
mas eu gostava de ti,
gostava, porque sofri,
e passei a encontrar-te
lá ao pé da trepadeira...

até que um dia
passou uma conversa na ingombota
que falava de nós dois;
e tu, ó fula trigueira,
oásis do areal,
nunca mais...

nunca mais ao pé da trepadeira
beijei a cruz do teu corpo,
quando os teus braços se abriam
para me abraçar...
quando os teus braços se abriam
como uma cruz no altar.


uma conversa passou
que falava de mim, de ti, do nosso amor
e de mentiras irreais...

uma conversa passou na ingombota

- e nunca mais!

Tomaz Vieira da Cruz



domingo, 2 de fevereiro de 2014