segunda-feira, 6 de janeiro de 2014

Exercício nocturno

para a Antonieta


toma este poema.
como se fosse uma coisa volumétrica
com arestas de vento e reflexos de lua sobre o mar.

toma este poema
como os olhos os nossos olhos se prendem pela água
enquanto os dedos dedilham a areia arrefecida
pela noite.

toma este poema
como o ouvido o nosso ouvido descobre em cada
marulhar
a música mais simples com palavras
obrigatoriamente dentro.

toma este poema
como se fosse uma narrativa secular de vida
e morte
meninos que cresceram foram grandes
conhecedores da ilha e seus segredos
depois morreram velhos com a esperança
de mais saber e descobrir do mar.

toma este poema
e vê que o mar não tem idade
e sempre muda sabendo tudo como por exemplo
que ali é com certeza a cassiopeia
e que esta noite não há estrela polar.

toma este poema
como uma cápsula de bala sobre a areia
ou um esqueleto humano e um carro de bebé
em s. pedro da barra.

toma este poema
como um menino que perdeu o pai na guerra
e faz de uma vermelha pétala de acácia de ontem
a vela de concha mais límpida
de hoje para amanhã ir navegar. 


Manuel Rui

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