quarta-feira, 15 de janeiro de 2014

A história triste

o luar cobriu-lhe o rosto de negro
de um manto de magia.
e eu vi-lhe os olhos tristes, cintilantes
como as estrelas no veludo negro do céu.

apertei em meus braços
seu corpo virgem, escaldante.
e ela fugiu, veloz, aos meus abraços.

os seus olhos tinham uma expressão parada
e eu vi que se fixavam no passado
no passado misterioso e insondável.

seus olhos perscrutavam um mistério
e os meus
os meus olhos febricitantes
mergulharam no mistério dos seus olhos.

e vi
e vi filas de escravos no sertão
e vi negros chorando no porão do negreiro.

e ouvi
e ouvi ruído das correntes
e os gritos das mães sem filho
e das amadas sem noivo.

e os meus lábios se abriram
temerosos
para contar a grande história
a história triste.

ela não disse nada.
os seus olhos tinham a mesma expressão parada.
o mesmo gelo na quietude do seu rosto.

então
vi que ela tudo sabia
e que 
o que eu sabia de ter lido
ela tinha gravado em sua carne!

Mário António

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