sexta-feira, 31 de janeiro de 2014

A aranha

leve, sem peso e aguda, esmaecida,
na memória só cinza de agonias
a latejar concreta e densa ferida
nas veias e nos olhos destes dias,
mesmo abertos de sono, ou já fechados
de solitária solidão, na paz
movediça, legal, de acorrentados
à noite porca - aranha pertinaz
devorando ânsias, sonhos, resistências,
transformando-nos, sangue, em desespero,
a ante-espera do alvor, em vis falências
corrosivas roendo-nos os músculos
tensos e justos de regar a flor,
ou construir a pausa dos crepúsculos
nas noites fecundadas pelo amor...

António Cardoso

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