sexta-feira, 31 de janeiro de 2014

A aranha

leve, sem peso e aguda, esmaecida,
na memória só cinza de agonias
a latejar concreta e densa ferida
nas veias e nos olhos destes dias,
mesmo abertos de sono, ou já fechados
de solitária solidão, na paz
movediça, legal, de acorrentados
à noite porca - aranha pertinaz
devorando ânsias, sonhos, resistências,
transformando-nos, sangue, em desespero,
a ante-espera do alvor, em vis falências
corrosivas roendo-nos os músculos
tensos e justos de regar a flor,
ou construir a pausa dos crepúsculos
nas noites fecundadas pelo amor...

António Cardoso

quarta-feira, 29 de janeiro de 2014

Os alimentos morais

enluarados companheiros
erguei as vossas magias

em volta
sob o arco sombreado

como a frutapinha.
arma ou cantil?

lugar aberto a escopro
um pequeno nada

fora do alcance inimigo - 
as munições

o pão e a água: ei-los
alimentos morais.

David Mestre

segunda-feira, 27 de janeiro de 2014

O meu coração batuca

meu coração batuca ao ritmo e som
das marimbas, quingufos e quissanges.
(o batuque nasceu comigo, o ser me invade,
e sinto-o no meu sangue,
desde essa hora,
no movimento inicial da minha liberdade,
no canto com que saudei a terra, a humanidade.)
dentro da minha alma canta e chora
todo o grito dos muimbos africanos.
o fogo da queimada no capim
é a febre que me avassala,
quando o teu corpo e o meu requebram na sanzala,
onde, uma noite, ainda monandengues,
fizemos bailar o amor.

neste mesmo instante, na europa longe,
nos salões requintados de londres,
de roma, de paris, de madrid ou lisboa,
grupos de jovens, dançando e cantando,
disfarçados, estão macaqueando
a nossa batucada que no mundo ressoa.

eles cantam e dançam
- movimento e alarido,
vozes e pernas...
mas nós temos na carne e na alma,
desde o primeiro gesto e o primeiro vagido,
o ritmo e o som deste batuque, 
e a voz de áfrica eterna.

Geraldo Bessa Victor

domingo, 26 de janeiro de 2014

sexta-feira, 24 de janeiro de 2014

Entardecer em Benguela

em benguela, ao entardecer,
quando o sol - pitanga rútila -
se suspende sobre o mar
e a praia morena
se espreguiça
ansiando o luar
alda lara vem,
coroada de buganvílias vermelhas,
semear múcuas de sonhos
sobre a terra tão amada...
sonhos que são veludo negro
pintados de estrelas:
olhos - diamantes - leopardos...

Namibiano Ferreira

quarta-feira, 22 de janeiro de 2014

O passado é uma laranja amarga

o passado
é uma laranja amarga
a chuva
cai de teus olhos
o vento
tem cabeça de galo
e
o jacaré
levou tua perna
pró palácio
de seu rei

Arlindo Barbeitos

segunda-feira, 20 de janeiro de 2014

Esperança

canta no fogo
do ocaso
um riso de criança…

sobre a planura
que o clarão descobre
na noite
o sorriso avança
e cerca-me
de segredos
e de esperança…

Jorge Arrimar

domingo, 19 de janeiro de 2014

sexta-feira, 17 de janeiro de 2014

Só me restam

e agora só me restam
os poetas gregos.
o silêncio diz – esquece.
e o espinho da rosa enterrado no peito
é meu.


os deuses não assistiram a isto.


Alexandre Dáskalos

quarta-feira, 15 de janeiro de 2014

A história triste

o luar cobriu-lhe o rosto de negro
de um manto de magia.
e eu vi-lhe os olhos tristes, cintilantes
como as estrelas no veludo negro do céu.

apertei em meus braços
seu corpo virgem, escaldante.
e ela fugiu, veloz, aos meus abraços.

os seus olhos tinham uma expressão parada
e eu vi que se fixavam no passado
no passado misterioso e insondável.

seus olhos perscrutavam um mistério
e os meus
os meus olhos febricitantes
mergulharam no mistério dos seus olhos.

e vi
e vi filas de escravos no sertão
e vi negros chorando no porão do negreiro.

e ouvi
e ouvi ruído das correntes
e os gritos das mães sem filho
e das amadas sem noivo.

e os meus lábios se abriram
temerosos
para contar a grande história
a história triste.

ela não disse nada.
os seus olhos tinham a mesma expressão parada.
o mesmo gelo na quietude do seu rosto.

então
vi que ela tudo sabia
e que 
o que eu sabia de ter lido
ela tinha gravado em sua carne!

Mário António

segunda-feira, 13 de janeiro de 2014

Transmudação das águas

VI
novembro
não é mais do que uma 
lua solta sem raiz no leste,
sem poder para embeber a terra
e anular-lhe
a face empedernida e velha.

mal se desloca a sombra
na paisagem
e as hastes permanecem vegetal  grafia
a destacar-se
num céu aquém de encostas confundidas.

e nem anula o pó
do trote das manadas
á volta das cacimbas,
e nem os animais ainda aspiram
urgência de viagens.

a chuva de novembro
traz a marca
da podridão latente
(o que escurece 
o grão da perspectiva,
acama a derradeira espiga
preservada
e marca de impotência
o som redondo
que se projecta curto).

VII
cansa olhar
ondulações sem brilho.
a claridade crua
de um sol que se não vê.
a próxima matéria
de um céu sem altitude.

a contenção do gesto
e das funções.
o navegar a mais serena ausência de contorno,
o chão sem som,
a sombra sem azul,
o ar sem eco,
sem fibra,
sem chicote.

VIII
depois,
a pouco e pouco
decanta-se o alvoroço
e muda, em nós,
a direcção do vento
vespertino.
o cacto agradecido
espiga já
e amadurece a flor
mais reservada
e rara, 
rubro espinho cravado
na teimosia opaca
do dorso de dezembro.

a nitidez das serras
denuncia
o altear das brumas.
e os dias de janeiro,
renovados de vigor continental,
sucedem-se cada vez mais jovens,
dando-se as mãos na noite seca
e percutindo nela
o brusco estralejar da lenha seca,
o gume-instante da labareda esguia.

XIX
e perdem-se animais
ao pôr do sol,
e chegam cães de longe
a farejar a espera,
e os rebanhos unidos
são mais lentos
e alongam as mil patas
num caminhar dorido
e delicado.

as vozes simplificam-se
e as visitas
são mais longas, mais serenas, mais alheias.
a terra espera unida aos animais
e à gente e à obra: as mãos
as orações e a alegria.
os corpos
surgem nus
e os pés descalços
e as mãos são magras
e dorme-se ao relento.
e o cheiro das manadas
monta a brisa
para polvilhar a noite
de um pó de ouro
em que faísque
o sol da madrugada.
e se arredonda, em gotas duradoiras,
o derradeiro orvalho da estação.

Ruy Duarte de Carvalho



domingo, 12 de janeiro de 2014

Parque Nacional de Kangandala, Malanje

sexta-feira, 10 de janeiro de 2014

Elementos para um poema

a poesia me chama

sangue de coca-cola
lembrança de coxas abertas
aveludadas

guerra guerra
espreitando atrás da nuca

duas crianças de
olhos vivos esperançosos
- minhas filhas tão doces

promessas delirantes de amor

o meu amor ama
o meu falo

eu amo os meus amores
todos

amigos – onde
é a farra?

carcamanos filhos
da puta

um país enorme exangue
(ah mas hei-de senti-lo pulsar
nos campos e nas estradas)

agora a poesia me chama
- e sem saber pra onde

eu vou


João Melo

quarta-feira, 8 de janeiro de 2014

Calemo-nos!

calemo-nos!
é medonho o silêncio dos anjos,
e longo o dia que se avizinha...

o mesmo que me bebe o sangue
e me segreda a verdade,
em breve esquecida,
estancou a palavra impossível
a anunciar o dia que se avizinha.

calemo-nos!
é medonho o silêncio dos anjos,
porque alguém - 
o mesmo que me aponta um rasto invisível - 
estancou a palavra impossível
a anunciar o dia que se adivinha.


Tomaz kim

segunda-feira, 6 de janeiro de 2014

Exercício nocturno

para a Antonieta


toma este poema.
como se fosse uma coisa volumétrica
com arestas de vento e reflexos de lua sobre o mar.

toma este poema
como os olhos os nossos olhos se prendem pela água
enquanto os dedos dedilham a areia arrefecida
pela noite.

toma este poema
como o ouvido o nosso ouvido descobre em cada
marulhar
a música mais simples com palavras
obrigatoriamente dentro.

toma este poema
como se fosse uma narrativa secular de vida
e morte
meninos que cresceram foram grandes
conhecedores da ilha e seus segredos
depois morreram velhos com a esperança
de mais saber e descobrir do mar.

toma este poema
e vê que o mar não tem idade
e sempre muda sabendo tudo como por exemplo
que ali é com certeza a cassiopeia
e que esta noite não há estrela polar.

toma este poema
como uma cápsula de bala sobre a areia
ou um esqueleto humano e um carro de bebé
em s. pedro da barra.

toma este poema
como um menino que perdeu o pai na guerra
e faz de uma vermelha pétala de acácia de ontem
a vela de concha mais límpida
de hoje para amanhã ir navegar. 


Manuel Rui