quarta-feira, 18 de dezembro de 2013

Testamento

à prostituta mais nova,
do bairro mais velho e escuro,
deixo os meus brincos, lavrados
em cristal, límpido e puro...

e àquela virgem esquecida
rapariga sem ternura,
sonhando algures uma lenda,
deixo o meu vestido,
o meu vestido de noiva,
todo tecido de renda...

este meu rosário antigo,
ofereço-o àquele amigo
que não acredita em deus...

e os livros, rosários meus
das contas de outro sofrer,
são para os homens humildes,
que nunca souberam ler.

quanto aos meus poemas loucos,
esses, que são de dor
sincera e desordenada...
esses, que são de esperança,
desesperada mas firme,
deixo-os a ti, meu amor...

para que, na paz da hora,
em que a minha alma venha
beijar de longe os teus olhos,

vás por essa noite fora...
com passos feitos de lua,
oferecê-los às crianças
que encontrares em cada rua...

Alda Lara


1 comentário:

Majo disse...

***** B E L Í S S I M O!*****