segunda-feira, 16 de dezembro de 2013

Penélope no trem

no trem entre queluz e lisboa
uma mulher tricota. a malha ou
os seus pensamentos? Uma sombra opaca
reluz no seu olhar absorto.

(o que irá brotar
das mãos dessa mulher
- como a explosão de uma flor?)

amorosamente ou
com silencioso ódio,
ela modela uma qualquer criatura,
que ao poeta é interdito adivinhar.

(que obrigações
a atormentam?
que esperança cega
a faz ainda resistir?)

todas as noites, neste trem suburbano,
esta mulher tricota os próprios dedos,
macerados por tantos dias
sem despertarem paixões.

(e em casa não a espera ulisses,

mas josé)


João Melo

1 comentário:

Majo disse...

Com uma criatividade encantadora, o poeta põe-nos face às suas interrogações existencialistas, o modo como as circunstâncias modelam os seres.
Um poema inteligente e perfeito.