segunda-feira, 9 de dezembro de 2013

Esqueçam

quantas vezes meu olhar se perde
nas polainas dos campos sem as ver?
quantas vezes contemplo
o vazio que me cobre a vida
sem o ver?
quantas?
perdi em mim a graça de ser eu,
meu peito alberga uma inocência pervertida,
minha alma quebrada nunca vibrou.
não sou o ser que os outros vêm,
não tenho ilusões nem as alimento,
o meu passado é igual ao meu presente.
se alguma coisa fiz não foi por bem,
reneguei o sentimento de o ser...
se algo mereço nesta vida,
decerto que não é o perdão dos meus actos
pois esses nunca foram desmedidos,
mas o castigo dos meus pensamentos.
meu corpo não tem culpas
não o façam pois sofrer.
se em vida a vida é um presente,
desmereço o fruto de um futuro,
o desvelo de um presente amante
ou a memória de um passado alado.
apenas gostaria de chorar de dor,
de arrependimento.
queria secar minha alma,
calar a voz que grita em mim,
prender uma corda ao meu pescoço
puxando-a sempre que as cordas do meu sistema vocal
pretendam cuspir os seus desprezos.
morrer...
para que hei-de morrer?
meus versos ficarão escritos
transmitindo no futuro os meus desprezos
outros lerão aceitando-os como certos
criando novos monstros pervertidos.
larva ou vírus que deixarei chorando
nas memórias dos que me lerão sorrindo.

Ruy Burity da Silva


1 comentário:

Majo disse...

Poesia dramática!
O autor parece que se contradiz.
O conteúdo faz lembrar o soneto, "Já Bocage não sou!"

Antes de todos, é preciso perdoarmo-nos a nós mesmos, temos a obrigação de procurarmos ser felizes. Mais que um dever ético, é uma inerência da nossa natureza de seres vivos terrestres.