domingo, 22 de dezembro de 2013

sexta-feira, 20 de dezembro de 2013

De mãos vazias

as mãos trago-as vazias
só nos olhos conservo o sonho.

e no íntimo
guardo recordações amargas
do género dito humano.

as mãos trago-as vazias
mas volto rico de presentes
para todos vós, camaradas.

minha bagagem de escravo forro,
ei-la:
um punhado de folhas soltas
contendo meus versos tristes
sabendo a fome e maresia.

as mãos trago-as vazias
e minha bagagem são só versos tristes...

mas para vós, camaradas
trago um peito aberto
para as dores do nosso sofrer
trago os braços abertos 
para a solidariedade dum abraço.

volto de mãos vazias
de mãos vazias sim, camaradas
mas nos olhos conservo o sonho.

Jofre Rocha

quarta-feira, 18 de dezembro de 2013

Testamento

à prostituta mais nova,
do bairro mais velho e escuro,
deixo os meus brincos, lavrados
em cristal, límpido e puro...

e àquela virgem esquecida
rapariga sem ternura,
sonhando algures uma lenda,
deixo o meu vestido,
o meu vestido de noiva,
todo tecido de renda...

este meu rosário antigo,
ofereço-o àquele amigo
que não acredita em deus...

e os livros, rosários meus
das contas de outro sofrer,
são para os homens humildes,
que nunca souberam ler.

quanto aos meus poemas loucos,
esses, que são de dor
sincera e desordenada...
esses, que são de esperança,
desesperada mas firme,
deixo-os a ti, meu amor...

para que, na paz da hora,
em que a minha alma venha
beijar de longe os teus olhos,

vás por essa noite fora...
com passos feitos de lua,
oferecê-los às crianças
que encontrares em cada rua...

Alda Lara


segunda-feira, 16 de dezembro de 2013

Penélope no trem

no trem entre queluz e lisboa
uma mulher tricota. a malha ou
os seus pensamentos? Uma sombra opaca
reluz no seu olhar absorto.

(o que irá brotar
das mãos dessa mulher
- como a explosão de uma flor?)

amorosamente ou
com silencioso ódio,
ela modela uma qualquer criatura,
que ao poeta é interdito adivinhar.

(que obrigações
a atormentam?
que esperança cega
a faz ainda resistir?)

todas as noites, neste trem suburbano,
esta mulher tricota os próprios dedos,
macerados por tantos dias
sem despertarem paixões.

(e em casa não a espera ulisses,

mas josé)


João Melo

domingo, 15 de dezembro de 2013

sexta-feira, 13 de dezembro de 2013

No mesmo mar

desarrumado rumos arrumámos
(munhungando ventos)
contraventos

exílio
azeda espuma
os portos deportação
oceano negreiro

branca rosa
chegadas formosas
caminho humano nele
traçamos

Jorge Macedo

quarta-feira, 11 de dezembro de 2013

Insónia

I
... e se alguma vez pudesse adivinhar
na firmeza do negar-me que me imponho
não te detenhas um minuto
para ver-me pensar            linha de horizonte.

em mim nasceu o que não pode ser vivido
porque eu sou o resultado de impossíveis
a distância maior
entre as linhas tão suaves que 
sendo da palma da tua mão
são minhas que as vivo          quando vivo.

II
não há vendaval que possa arrancar estas raízes
 loucas
não há noite de luar que possa comover estas musgosas insónias 
loucas
não há força que destrua esta violência de envolver-me d'impossíveis 
loucos
não há rochedo que possa esmagar esta frágil violeta
louca
não há carinho que dulcifique esta sede de apagar-me
louco.
... em mim
estão contidos todos os granitos do mundo
e este amor              louco
tão louco
que apenas é vencido
tal vida que a morte procurasse
ao adivinhar-te triste nas amêndoas dos teus olhos.

Costa Andrade

segunda-feira, 9 de dezembro de 2013

Esqueçam

quantas vezes meu olhar se perde
nas polainas dos campos sem as ver?
quantas vezes contemplo
o vazio que me cobre a vida
sem o ver?
quantas?
perdi em mim a graça de ser eu,
meu peito alberga uma inocência pervertida,
minha alma quebrada nunca vibrou.
não sou o ser que os outros vêm,
não tenho ilusões nem as alimento,
o meu passado é igual ao meu presente.
se alguma coisa fiz não foi por bem,
reneguei o sentimento de o ser...
se algo mereço nesta vida,
decerto que não é o perdão dos meus actos
pois esses nunca foram desmedidos,
mas o castigo dos meus pensamentos.
meu corpo não tem culpas
não o façam pois sofrer.
se em vida a vida é um presente,
desmereço o fruto de um futuro,
o desvelo de um presente amante
ou a memória de um passado alado.
apenas gostaria de chorar de dor,
de arrependimento.
queria secar minha alma,
calar a voz que grita em mim,
prender uma corda ao meu pescoço
puxando-a sempre que as cordas do meu sistema vocal
pretendam cuspir os seus desprezos.
morrer...
para que hei-de morrer?
meus versos ficarão escritos
transmitindo no futuro os meus desprezos
outros lerão aceitando-os como certos
criando novos monstros pervertidos.
larva ou vírus que deixarei chorando
nas memórias dos que me lerão sorrindo.

Ruy Burity da Silva


domingo, 8 de dezembro de 2013

sexta-feira, 6 de dezembro de 2013

Partida para o contrato

o rosto retrata a alma
amarfanhada pelo sofrimento

nesta hora de pranto
vespertina e ensanguentada
manuel
o seu amor
partiu para s. tomé
para lá do mar

até quando?

além no horizonte repentinos
o sol e o barco
se afogam
no mar
escurecendo
o céu escurecendo a terra
e a alma da mulher

não há luz
não há estrelas no céu escuro
tudo na terra é sombra

não há luz 
não há norte na alma da mulher

negrura
só negrura...


Agostinho Neto

quarta-feira, 4 de dezembro de 2013

Acaso

nasci da dor somente,
da dor não redimida
pelo amor…

uns braços desencantados
me cingiram.
uns olhos de agonia saturados
me espreitaram.

não fui a bem-amada,
a prometida.
fui apenas o acaso
numa vida.

Amélia Veiga

segunda-feira, 2 de dezembro de 2013

Tecidos

meu corpo
é um tear vertical
onde deixaste cruzadas
as cores da tua vida: duas faixas um losango
marcas da peste.

meu corpo
é uma floresta fechada
onde escolheste o caminho

depois de te perderes
guardaste a chave e o provérbio.

Paula Tavares

domingo, 1 de dezembro de 2013


 O Morro Lubiri  (Alto Hama), o segundo maior monolito do mundo.