segunda-feira, 18 de novembro de 2013

Monangamba

naquela roça grande não tem chuva
é o suor do meu rosto que rega as plantações

naquela roça grande tem café maduro
e aquele vermelho-cereja
são gotas do meu sangue feitas seiva.
o café vai ser torrado,
pisado, torturado,
vai ficar negro, negro da cor do contratado

negro da cor do contratado!

perguntem às aves que cantam,
aos regatos de alegre serpentear
e ao vento forte do sertão:

quem se levanta cedo? quem vai à tonga
quem traz pela estrada longa
a tipóia ou o cacho de dendém?
quem capina e em paga recebe desdém
fuba podre, peixe podre,
panos ruins, cinquenta angolares
"porrada se refilares"?

quem?

quem faz o milho crescer
e os laranjais florescer
- quem?

quem dá dinheiro para o patrão comprar
máquinas, carros, senhoras
e cabeças de pretos para os motores?

quem faz o branco prosperar,
ter barriga grande - ter dinheiro?
- quem?

e as aves que cantam,
os regatos de alegre serpentear
e o vento forte do sertão
responderão:

- "monangambééé..."


António Jacinto

1 comentário:

Majo disse...

pEssa organização dos contratados para as fazendas de café, foi a mais feia e triste exploração que eu vi exercer pelos colonialistas, em Angola.
Ótima poesia.
Importa arrumar o passado e dar a volta, rumo ao futuro.

Eu sei que foi muito duro...