sexta-feira, 29 de novembro de 2013

Passeios

conheço as canções que o deserto desconhece.
bebo nas minhas mãos a imagem do deserto.
sinto-me torturado nas curvas do  deserto
onde vejo os barcos do planeta escamoso.

todas as minhas canções crepitam nos barcos.
todas as vozes concentram-se no meu sangue.

e o sangue para lá dos oásis do deserto
lembra os passeios sensuais dos meus olhos.

João Maimona

quarta-feira, 27 de novembro de 2013

Poemas ao sol

Poema II


o sol da minha terra
o seu tamanho
entra em todos os olhos
mesmo nas fundas cacimbas sem futuro
é a única oferta

o sol da minha terra
o seu calor
arde em todos os peitos
aquele fogo lento das masuíka
é o único alimento.

o sol da minha terra
a sua luz
acende em todas as coisas
o convite das cores de céu-folhas museke
é a única pureza.

o sol da minha terra
às vezes é também
um relâmpago do meio-dia
e queima as sombras dos homens.

o sol da minha terra!

o sol da minha terra!


Arnaldo Santos

segunda-feira, 25 de novembro de 2013

Imbondeiro

fantasma alerta e só na terra antiga,
é monstro do luar, enraivecido,
tão apressado e louco, que fustiga
pelas noites, seu ventre adormecido,

com estertores de ramos em abraços
vitoriosos num chão erodido...
e de dia, também se deixa, a espaços,
ser o insólito grave consentido

pelo olhar mole, e, lento, sem idade,
zunindo ao sol, decola para o céu
sua árida tristeza igual à minha...

talvez o seu destino fosse o meu,
não me fôra a memória que caminha
e árdua me vencerá na imensidade!...

António Cardoso

domingo, 24 de novembro de 2013

sexta-feira, 22 de novembro de 2013

Quando eu fui chão para lágrimaterrizagem

de tanta risada
a hiena ganhou vício
de lacrimealeijar.
porque um dia
exercitei-me de raiz,
compus-me de lamas.
a hiena passante,
desconhecendo.
e, quando parante, irrisonha.
(mas: para testemunhá-la
há que ser existido anedoticamente.)
enraizado para espreitações
- sub-hienado -
vitimizei-me de suas goticulares esferas,
íris desfalecendo humidades.
na provação, soube-me:
de tanto risar tanto
a hiena lacrimealeja é sementes.
sementes para flores salinas.

Ondjaki

quarta-feira, 20 de novembro de 2013

Guerra

dois meninos sentados
um terceiro de pé
todos irmanados
na orfandade de um pé


Manuel dos Santos Lima

segunda-feira, 18 de novembro de 2013

Monangamba

naquela roça grande não tem chuva
é o suor do meu rosto que rega as plantações

naquela roça grande tem café maduro
e aquele vermelho-cereja
são gotas do meu sangue feitas seiva.
o café vai ser torrado,
pisado, torturado,
vai ficar negro, negro da cor do contratado

negro da cor do contratado!

perguntem às aves que cantam,
aos regatos de alegre serpentear
e ao vento forte do sertão:

quem se levanta cedo? quem vai à tonga
quem traz pela estrada longa
a tipóia ou o cacho de dendém?
quem capina e em paga recebe desdém
fuba podre, peixe podre,
panos ruins, cinquenta angolares
"porrada se refilares"?

quem?

quem faz o milho crescer
e os laranjais florescer
- quem?

quem dá dinheiro para o patrão comprar
máquinas, carros, senhoras
e cabeças de pretos para os motores?

quem faz o branco prosperar,
ter barriga grande - ter dinheiro?
- quem?

e as aves que cantam,
os regatos de alegre serpentear
e o vento forte do sertão
responderão:

- "monangambééé..."


António Jacinto

domingo, 17 de novembro de 2013

sexta-feira, 15 de novembro de 2013

No Penedo da Saudade", em Coimbra

aqui, neste penedo da saudade,
eu vim embalsamar o coração,
porque, já morta a fé, morta a ilusão,
envolve-se de luto a realidade.

e, dentro do meu corpo feito grade,
minh' alma presa escuta a oração
do poeta da eterna solidão,
na voz deste silêncio que me invade.

meu coração, repousa em terra santa,
em cada flor, em cada pedra, em cada
recanto onde a poesia nos encanta...

e sepulta contigo o teu segredo.
já foste carne e sangue, agora és nada,
agora és a saudade dum penedo...

Geraldo Bessa Victor

quarta-feira, 13 de novembro de 2013

Quando eu morrer

(para o Aniceto Vieira Dias e "Liceu" de "N'gola ritmos")



quando eu morrer
eu quero que o n'gola ritmos
vá tocar no meu enterro.

como sidney bechet
como armstrong
eu gostarei de saber

que vocês
tocaram no meu enterro.

lá no céu também há "angelitos negros"
e eu gostarei de saber
que vocês
me tocaram no enterro.

se não puder ser
deixem lá
tocarão noutro lado qualquer
com lágrimas nos olhos
como naquela noite
em casa do araújo
lembrarão o companheiro
das noites de luanda
das noites de boémia
das tardes de moamba.

ah! quando eu morrer
já sabem
quero que o meu caixão
vá no maxibombo da linha do cemitério
quero que toquem
a cidralha
ou convidem a marcha dos invejados.

é assim que eu quero ir
acompanhado da vossa alegria
bebedeiras seguindo o enterro
as velhas carpideiras de panos escuros
quero um kombaritókué dos antigos
que vai ser muito falado.

não convidem mulatas
que sempre estragam tudo
se vierem
não lhes vou rejeitar.
cantem apenas
alguns dos meus poemas
até enrouquecer.

ah! quando eu morrer
eu quero o n'gola ritmos
tocando no meu enterro.


Ernesto Lara Filho




segunda-feira, 11 de novembro de 2013

E os homens da terra...

e os homens da terra
sentaram-se! frutos silvestres
emprestaram sabedoria e sombra 
poeiras campestres
abençoaram papeladas
e acordos nos matos das picadas!

um vento a soprar agreste
as terras do leste
falou-me d' homens sentados
em troncos e pedras
a falarem acordos e palavras
e obuses de canhões silenciados!

a taça do sangue das armas
entornou-se! batuques e lágrimas
das gentes magricelas
a espreitar homens da terra
sentados, a falarem de paz em palavra
e sonhos e acordos d' estrelas!

a tumba dos homens apagados
em camuflados e botas
aplaudiram palmas
kazumbis e almas
dançaram alegria na matas
e homens sentaram pedras d'acordos!

e as patentes da terra
conversaram! calaram-se ruídos
e fuzis d' homens fardados
a barulhar palavras e guerras
conversam os homens nas pedras
e nos troncos dos acordos!

e os homens da terra conversaram!

Décio Bettencourt Mateus


domingo, 10 de novembro de 2013

sexta-feira, 8 de novembro de 2013

Novembro é quando

novembro é quando
o silêncio ajoelha
nos homens
o beijo de duas faces
comovido

(lágrima de
orvalho que
o cacimbo
esqueceu)

novembro é nem
saudade
pelos braços 
todos
acima

David Mestre

quarta-feira, 6 de novembro de 2013

Moringue

no silêncio-claridade
da manhã das noites
escrevo a luz da poesia
moldada em versos
vermelhos de terracota
como se fossem moringues
de água fresca e pura
e, no entanto, sabem
os deuses eu sou um filho
espúrio da terra que amo,
negra na raiz  vermelha
do corpo e da alma
sangue molhado a gritar
na força kazumbi-kwanza.

Namibiano Ferreira

segunda-feira, 4 de novembro de 2013

Carnaval carnaval carnaval

guizos apitos dicanzas gomas puítas e quissanges
vozes
vozes cantando berrando gritando chorando gargalhando e calando
papel riscado seda serapilheira peles e pele
missangas pulseiras chapéus espelhinhos cacos de garrafas e outras coisas
vermelho amarelo verde azul
azul verde amarelo vermelho o céu e o sol

carnaval carnaval carnaval

olhos para o ar mãos sem nexo peitos em turbilhão
ventres abobadados cus em assimetria e corpos jazendo
gentes
gentes gingando bamboleando saracoteando massembando cambalhotando e dormindo
                              
carnaval carnaval carnaval

poeira
poeira branca como fuba bombó
cobrindo
crianças cães folhas mangas água e tudo

cheiro
cheiro de bode cheirando de lábios revirados o mijo das cabras
cheiro de bagre seco repousando na calma das quindas
cheiro de catinga em nossos sovacos ardentes
cheiro de sentina que o vento traz das piteiras ao lado da cacimba
cheiro de chuva de ontem nas lavras sem niguém
e cheiro de pólvora dum outro dia de fevereiro ainda por chegar

carnaval carnaval carnaval

feiticeiro velho que fala com jacaré
passeando lentamente de chucho no ombro
e branco
branco vendendo vendendo vendendo

carnaval carnaval carnaval


Arlindo Barbeitos

domingo, 3 de novembro de 2013

sexta-feira, 1 de novembro de 2013

Me reconstruindo

onde ontem me torturavam
renascem as pálpebras demolidas
posso ver pedras que baralham pedras

posso ver a cor de todas as pápebras
alçadas do escombro
ou como eram trémulas mãos
adejando outras pálpebras,

escombro de mim pedra numerosa
me levanto e reconstruo
o que a mão tem dentro de mim;
encho as pálpebras é porque choro
se choro refaço o sonho, é verdade.
verdade acumulada de todos meus dias.

João Tala