quarta-feira, 16 de outubro de 2013

Transmudação das águas

I
não era
ainda
o tempo das manhãs lavadas
como nocturnas cabeleiras negras
escorrentes e interiormente macias,
ou como o som de um galopar em chão de estrelas,
ou mesmo a cor
de um vinho novo contra o sol.

II
era o mato,
a mata,
a cor lisa das pedras
e das ramas,
o espinho raso,
a sombra inacessível,
o bruto e agreste piso.

era  acácia,
rara ampola de humidade verde
concentrando
o derramar espinhoso da tremente sede
nivelada
na escura sucessão das copas baixas.
a interminável dimensão do sul
e pó.

III
era um mês de nuvens baixas,
volumosas e ocas,
um mês de madrugadas curtas,
já pesadas,
e manhãs de céu palpável,
cinzento e rente.

era o mês do extremo esforço das ramagens,
das derradeiras hastes
quebradiças ao vento.

o mês das migrações
tardias e arrastadas.
mês de tributo às águas:
o sacrifício imposto,
a selecção do débil, 
do cedente,
do mais pungente olhar brilhante
encastoado na latente anhara
como brasa
derradeira e longa,
entre a cinza
de um ritual de obrigação cumprida.

era um mês de charcos negros,
elaborados
em profundo rasto de nocturna busca,
silêncio e espera.
o mês das derradeiras humidades.

IV
era novembro,
um mês de cargas raras,
húmido ardor,
goma indecisa,
sobressalto de ar.
de atenção às nuvens e à direcção do vento,
consulta às luas e à ligeira referência
de um alado brilho de insecto,
percursor
de um novembro a derramar-se em suave chuva.

porque novembro,
o mês difícil, é também
o da mais breve primavera.
escasso deslize
da mão da tempestade.

V
é tímida porém
a consentida chuva
e apenas nos detém a desmedida sede que governa
o percutir dos corpos colectivos
sobre as pedras,
e as pedras nas vertentes,
e a inquieta direcção de um gesto
na mineral lisura.

Ruy Duarte de Carvalho



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