quarta-feira, 30 de outubro de 2013

Eu quero abandonar-me

eu quero abandonar-me
ao crepuscular ensombramento
das espinheiras
diluindo-se nas chanas
de fumo…
eu quero abandonar-me
ao grito das mães
chorando os seus filhos
fugidos na guerra…
eu quero abandonar-me
ao feitiço das tchitucas
se transformando
do som dos quissanjes
dos adivinhos…
eu quero abandonar-me
à dor
das zagaias
brilhando funerais
no escuro
dos quimbos desertos…
eu quero abandonar-me
à fome mastigada dos velhos
gemendo pelas noites
que não terminam…
eu quero abandonar-me
por todos os arimbos
da minha terra
onde morre e nasce a esperança

em cada pé de maçaroca…

Jorge Arrimar

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