segunda-feira, 7 de outubro de 2013

Cigana

quem me dera ser vagabundo
de um mundo
qualquer!...

quem me dera ir,
pelos caminhos,
com a única saia que tivesse p'ra vestir...,
(nem curta nem comprida...)
... uma saia fora de moda, desgraciosa,
mas forte e vistosa!...

quem me dera ir...,
a comer as amoras dos valados,
a dormir sobre a grama, sem telhados
que não fossem os do céu!...
ser "eu"...
acenar aos que trabalham nos campos,
e parar,
a ouvir as canções populares!...
seguir sempre sózinha, comigo
e com o sol...
ver nascer o arrebol,
e caminhar... sem destino...
ao som não sei de que hino...
mas livre... livre!...

livre de ter que dizer
"muito prazer"
a toda a hora!...
livre dos compromissos,
das etiquetas,
e de todas as tretas
que me acorrentam
e me lançam névoa sobre os ideais!...
livre das exposições,
das reuniões,
das aulas do forjaz
e outros que tais!...
livre de tudo!...
sem a ambição de possuir um "canudo",
sem educação!...
poder lamber as mãos,
e rir de troça,
dos que passam nas estradas,
de óculos escuros,
e grandes "espadas"!...

ah!... ser simples!...
não pensar na modista,
nem no dentista,
nem nas unhas por poluir...,
nem pensar na guerra
nem na pobreza...
saber só que a natureza
é bela e igual para todos!...
saber só, que caminho sózinha,
feliz com a minha liberdade!...
não conhecer a saudade
do que ficou para trás!...
e saber que há sempre,
um fruto maduro,
e uma estrela brilhante,
para cada caminhante!...
seguir... seguir sempre!...
sem um fito... sem um fim...
mas caminhar mesmo assim...
com o vento a bater-me
nas tranças do cabelo, às lufadas,
e a deixar-me beijar
todas as noites
pelo luar das estradas!...

quem me dera ir...
sem pátria, nem lei...
abraçada aos sonhos que sonhei!...

ah! cigana perdida, 
a sorrir
nas estradas da vida!...

Alda Lara

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