segunda-feira, 28 de outubro de 2013

Anti-heróica

não como herói te canto, pois não faltam
os que te erguem bandeiras desfraldadas
tu como  herói - guias, eles, no entanto
da tua condição
entre esta escuridão
e a noite que te atrai.

és, para eles, o marcado da revolta,
o filho que incendeia a casa de seu pai,
é teu retrato
o de um garoto ingénuo de olhos maus.

tens neles teus cantores
que não em mim
em quem batem como eco,
teus gritos desde a história.

pois, de nós os dois
é só de mim que falo
malfaçon des mulatresses
olhos broncos de inêxito
desespero
olhar doce cambulando nos portos
onde continuam
rios de sangue e esperma
a produzir-me. 

é só de mim que falo
frustre apolo dos hospícios
prisioneiro gigante conformado
génio sombrio de escura submissão.

e também
de minhas versões-bem
na roda
onde sempre de fora
permaneço:
bem-falante, educado, bem-vestido
que nunca fui
apenas
porque houve
sempre
uma voz doce, aflautada
que o dissesse.

eis como me canto
malfaçonado deus, protótipo futuro
recusado
por quantos
apenas por existirem
me promovem.

Mário António


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