quarta-feira, 30 de outubro de 2013

Eu quero abandonar-me

eu quero abandonar-me
ao crepuscular ensombramento
das espinheiras
diluindo-se nas chanas
de fumo…
eu quero abandonar-me
ao grito das mães
chorando os seus filhos
fugidos na guerra…
eu quero abandonar-me
ao feitiço das tchitucas
se transformando
do som dos quissanjes
dos adivinhos…
eu quero abandonar-me
à dor
das zagaias
brilhando funerais
no escuro
dos quimbos desertos…
eu quero abandonar-me
à fome mastigada dos velhos
gemendo pelas noites
que não terminam…
eu quero abandonar-me
por todos os arimbos
da minha terra
onde morre e nasce a esperança

em cada pé de maçaroca…

Jorge Arrimar

segunda-feira, 28 de outubro de 2013

Anti-heróica

não como herói te canto, pois não faltam
os que te erguem bandeiras desfraldadas
tu como  herói - guias, eles, no entanto
da tua condição
entre esta escuridão
e a noite que te atrai.

és, para eles, o marcado da revolta,
o filho que incendeia a casa de seu pai,
é teu retrato
o de um garoto ingénuo de olhos maus.

tens neles teus cantores
que não em mim
em quem batem como eco,
teus gritos desde a história.

pois, de nós os dois
é só de mim que falo
malfaçon des mulatresses
olhos broncos de inêxito
desespero
olhar doce cambulando nos portos
onde continuam
rios de sangue e esperma
a produzir-me. 

é só de mim que falo
frustre apolo dos hospícios
prisioneiro gigante conformado
génio sombrio de escura submissão.

e também
de minhas versões-bem
na roda
onde sempre de fora
permaneço:
bem-falante, educado, bem-vestido
que nunca fui
apenas
porque houve
sempre
uma voz doce, aflautada
que o dissesse.

eis como me canto
malfaçonado deus, protótipo futuro
recusado
por quantos
apenas por existirem
me promovem.

Mário António


sexta-feira, 25 de outubro de 2013

Num bago de romã...

num bago de romã
morre
um fogo-fátuo errante,
furando a rocha
à luz duma tocha
fumegante...

num bago de romã
vejo macabras ortigas
de mim,
uma vez loiras espigas:
sombras de mim
e do que serei...

um bago de romã encerra
tudo que na terra
semeei...

Tomaz Kim

quarta-feira, 23 de outubro de 2013

Canção singela

gosto do vasto perfume do churrasco,
de música baixa, da noite
medonha sobre o mar, de
silêncios longos como o pensamento,
de amar-te ao acordar,
não gosto da falta de inteligência, da
intolerância,
de acordar cedo, de almôndegas
fritas, de ver passar, pálidas e inchadas,
certas grávidas aflitas.

João Melo

segunda-feira, 21 de outubro de 2013

Canção da chuva grande

no dia da chuva grande, mãe
quero sair para a rua
pulando e cantando
com o coração a bailar de alegria.

no dia da chuva grande, mãe
que guarda o sol no olhar
fazendo coro com os meninos
quero sair para a rua

de pés nus e roupa molhada

Jofre Rocha

domingo, 20 de outubro de 2013

Gnu, também conhecido por boi-cavalo

sexta-feira, 18 de outubro de 2013

Caminho

no destino que se estende
longo e triste,
como estrada branca sem paisagem,
os meus passos
ferem sulcos profundos
que a chuva transforma em pântanos...

aves sinistras sobrevoam
os charcos dos meus passos
e répteis viscosos procriam
no lodo do fundo...

e eu caminho, caminho sempre
com a força e a derrota do princípio do mundo...

Amélia Veiga

quarta-feira, 16 de outubro de 2013

Transmudação das águas

I
não era
ainda
o tempo das manhãs lavadas
como nocturnas cabeleiras negras
escorrentes e interiormente macias,
ou como o som de um galopar em chão de estrelas,
ou mesmo a cor
de um vinho novo contra o sol.

II
era o mato,
a mata,
a cor lisa das pedras
e das ramas,
o espinho raso,
a sombra inacessível,
o bruto e agreste piso.

era  acácia,
rara ampola de humidade verde
concentrando
o derramar espinhoso da tremente sede
nivelada
na escura sucessão das copas baixas.
a interminável dimensão do sul
e pó.

III
era um mês de nuvens baixas,
volumosas e ocas,
um mês de madrugadas curtas,
já pesadas,
e manhãs de céu palpável,
cinzento e rente.

era o mês do extremo esforço das ramagens,
das derradeiras hastes
quebradiças ao vento.

o mês das migrações
tardias e arrastadas.
mês de tributo às águas:
o sacrifício imposto,
a selecção do débil, 
do cedente,
do mais pungente olhar brilhante
encastoado na latente anhara
como brasa
derradeira e longa,
entre a cinza
de um ritual de obrigação cumprida.

era um mês de charcos negros,
elaborados
em profundo rasto de nocturna busca,
silêncio e espera.
o mês das derradeiras humidades.

IV
era novembro,
um mês de cargas raras,
húmido ardor,
goma indecisa,
sobressalto de ar.
de atenção às nuvens e à direcção do vento,
consulta às luas e à ligeira referência
de um alado brilho de insecto,
percursor
de um novembro a derramar-se em suave chuva.

porque novembro,
o mês difícil, é também
o da mais breve primavera.
escasso deslize
da mão da tempestade.

V
é tímida porém
a consentida chuva
e apenas nos detém a desmedida sede que governa
o percutir dos corpos colectivos
sobre as pedras,
e as pedras nas vertentes,
e a inquieta direcção de um gesto
na mineral lisura.

Ruy Duarte de Carvalho



segunda-feira, 14 de outubro de 2013

O cercado

de que cor era o meu cinto de missangas, mãe
feito pelas tuas mãos
e fios do teu cabelo
cortado na lua cheia
guardado do cacimbo
no cesto trançado das coisas da avó

onde está a panela do provérbio, mãe
a das três pernas
e asa partida
que me deste antes das chuvas grandes
no dia do noivado

de que cor era a minha voz, mãe
quando anunciava a manhã junto à cascata
e descia devagarinho pelos dias

onde está o tempo prometido p'ra viver, mãe
se tudo se guarda e recolhe no tempo da espera
p'ra lá do cercado

Paula Tavares

sábado, 12 de outubro de 2013

sexta-feira, 11 de outubro de 2013

Cruzamento

só havia o dia e a noite escura,
o dia translúcido de brancura sem mácula,
a noite negra qual luto cerrado.

um dia o sol olhando a noite disse:
- porquê és tão escura?
a noite verteu uma lágrima sentida
e nada disse.

o sol penalizado casou com a penumbra,
gerando a noite no seu ventre
outra noite mais clara, a noite de luar.

Ruy Burity da Silva

quarta-feira, 9 de outubro de 2013

O mar

I
vão barcos nossos demandar pescado
no cais o povo descarrega livre
livres domingos de porões nas mãos.

II
pesqueiro estrangeiro
ladrão por dinheiro
camarão apresado 
por vaso de guerra nosso.

III
e as praias dantes devassadas
por hábitos comuns coloniais
fazem avisos de mar que sempre muda:
a pê-bê-ú recente
parece pretendente
do passado herdado
acelera bem
estende-se com jeito
a aqui e além.

Manuel Rui

segunda-feira, 7 de outubro de 2013

Cigana

quem me dera ser vagabundo
de um mundo
qualquer!...

quem me dera ir,
pelos caminhos,
com a única saia que tivesse p'ra vestir...,
(nem curta nem comprida...)
... uma saia fora de moda, desgraciosa,
mas forte e vistosa!...

quem me dera ir...,
a comer as amoras dos valados,
a dormir sobre a grama, sem telhados
que não fossem os do céu!...
ser "eu"...
acenar aos que trabalham nos campos,
e parar,
a ouvir as canções populares!...
seguir sempre sózinha, comigo
e com o sol...
ver nascer o arrebol,
e caminhar... sem destino...
ao som não sei de que hino...
mas livre... livre!...

livre de ter que dizer
"muito prazer"
a toda a hora!...
livre dos compromissos,
das etiquetas,
e de todas as tretas
que me acorrentam
e me lançam névoa sobre os ideais!...
livre das exposições,
das reuniões,
das aulas do forjaz
e outros que tais!...
livre de tudo!...
sem a ambição de possuir um "canudo",
sem educação!...
poder lamber as mãos,
e rir de troça,
dos que passam nas estradas,
de óculos escuros,
e grandes "espadas"!...

ah!... ser simples!...
não pensar na modista,
nem no dentista,
nem nas unhas por poluir...,
nem pensar na guerra
nem na pobreza...
saber só que a natureza
é bela e igual para todos!...
saber só, que caminho sózinha,
feliz com a minha liberdade!...
não conhecer a saudade
do que ficou para trás!...
e saber que há sempre,
um fruto maduro,
e uma estrela brilhante,
para cada caminhante!...
seguir... seguir sempre!...
sem um fito... sem um fim...
mas caminhar mesmo assim...
com o vento a bater-me
nas tranças do cabelo, às lufadas,
e a deixar-me beijar
todas as noites
pelo luar das estradas!...

quem me dera ir...
sem pátria, nem lei...
abraçada aos sonhos que sonhei!...

ah! cigana perdida, 
a sorrir
nas estradas da vida!...

Alda Lara

domingo, 6 de outubro de 2013

sexta-feira, 4 de outubro de 2013

Passei a vida...

passei a vida a servir
os meus dias passei-os a chorar
no meu mundo
meu inferno.

os braços trabalhando
para um mundo alheio
os meus dedos musicando
para o mundo alheio.

meu mundo
meu inferno.

e ainda choro hoje
mas de vergonha
de pejo
por ter vivido num mundo inferno
sem ter tido ao menos alma para morrer.

Agostinho Neto

quarta-feira, 2 de outubro de 2013

Poemas para um tocador de quissanje

I

leio nos teus olhos
a minha infância
como quem olha um retrato
envelhecido e mudo...

os teus olhos parados
claros de luas passadas
não são mais que pedras frias
onde perpassam cacimbos...

... no entanto leio neles
todo este mundo querido
de mistérios
asombrações
e receios
claras manhãs de Janeiro
calor de todos os jangos
verdes capins sorrindo...

falam de noites da vida
vidas da vida falando
na linguagem de um quissanje.

II

eras o maior
dos tocadores de quissanje...

vinham gentes
e paravam...
ao luar de frios ventos
de jangos mudos
e as mulembas
não embalavam
as folhas...

na longa noite do tempo
inda se escutam e choram
teus acordes de quissanje
mensagens de além perdido.

Costa Andrade