segunda-feira, 23 de setembro de 2013

Ao bater da chuva

a porta fechada é uma obsessão.
as vozes caladas em torno de nós,
as pausas alongadas em silêncios de uma angústia
nova,
são a descontinuidade do tempo interrompido
dentro da casa que arrombaram ontem,
no coração da aldeia do mazozo.
a chuva cai em bátegas doces, a chuva bate o capim
molhado,
e soa...
a humanidade é fria.

as mulheres já choraram tudo
- a mãe gonga comandou o coro.
esvaem-se agora em surdina muda,
que agudiza o bater da chuva.
os homens dizem de quando em quando
um nome obstinado.

chamava-se infeliz
aquele rapaz
que levaram ontem
do coração da aldeia.

a chuva matraqueia ainda e sempre
na porta fechada como uma obsessão.
como ela nos lembra o som odiado
que dia após dia
nos sobressalta!
como ela recorda o som da metralha,
que dia após dia
desce o morro da colomboloca
e bate naquela porta fechada,
obsecada de protecção!

a gente conhece o som da metralha
quando ela vem no fim do dia.
quando ela vem, silencia a aldeia,
então em sobressalto o povo diz:
- foram fuzilados...

e ninguém sabe do infeliz,
aquele rapaz que levaram ontem...

Henrique Abranches


Sem comentários: