segunda-feira, 30 de setembro de 2013

Lição de guerra

dignidade do homem (a vida)
parte alegre da guerra
repartimos
                                                as partes
do corpo
para a construção dos corpos
que não
                                  sobre ombrem
mais
smith(s)      vorter(s)

idos e tombados
se erguem
     em cada libertado

a lição da guerra
                               verde amanhece
     nos campos resgatados


Jorge Macedo

domingo, 29 de setembro de 2013

sexta-feira, 27 de setembro de 2013

Na foz do rio kwanza

a foz - lugar que te quero mostrar um dia
irmos lá ver as margens e espreitar
os mangais verdes
perto de uma água lisa
bonita de os pássaros e as árvores e as nuvens
se espelharem nela, nessa água bonita
mostrar-te as margens brancas
e uma língua extensa de areia onde
a margem do rio
toca
a alma salgada do mar.

um rio lindo
de se deitar os olhos

kwanza é o nome dele.

Ondjaki

quarta-feira, 25 de setembro de 2013

Voto I

não vou gritar.
digo-o sem torturas de voz.
não vou gritar. não vou gritar.

não quero que os gritos cresçam
entre as sequelas de meus gritos.
não vou gritar.
e nunca esperem pelos gritos encostados
à miséria.

não quero que as pedras do dia 
oiçam a minha voz. e lancem
pedras contra os muros da minha voz.

não vou gritar
o céu há-de recensear a minha voz.
antes que os gritos que nascem
do grito de dentes triturados
abandonem as fronteiras de meus lábios.

João Maimona

segunda-feira, 23 de setembro de 2013

Ao bater da chuva

a porta fechada é uma obsessão.
as vozes caladas em torno de nós,
as pausas alongadas em silêncios de uma angústia
nova,
são a descontinuidade do tempo interrompido
dentro da casa que arrombaram ontem,
no coração da aldeia do mazozo.
a chuva cai em bátegas doces, a chuva bate o capim
molhado,
e soa...
a humanidade é fria.

as mulheres já choraram tudo
- a mãe gonga comandou o coro.
esvaem-se agora em surdina muda,
que agudiza o bater da chuva.
os homens dizem de quando em quando
um nome obstinado.

chamava-se infeliz
aquele rapaz
que levaram ontem
do coração da aldeia.

a chuva matraqueia ainda e sempre
na porta fechada como uma obsessão.
como ela nos lembra o som odiado
que dia após dia
nos sobressalta!
como ela recorda o som da metralha,
que dia após dia
desce o morro da colomboloca
e bate naquela porta fechada,
obsecada de protecção!

a gente conhece o som da metralha
quando ela vem no fim do dia.
quando ela vem, silencia a aldeia,
então em sobressalto o povo diz:
- foram fuzilados...

e ninguém sabe do infeliz,
aquele rapaz que levaram ontem...

Henrique Abranches