sexta-feira, 31 de maio de 2013

A salga

na salga
à tona do seu mar de secura
golpes brancos de sol
esvaziam as coisas dos seus núcleos

na salga
as cores mortas nos ossos
reduzem também os homens
a uma agonia de escamas

na salga
sono do kisalale sobre os tectos
não chama sonhos
tem o tempo
de sua fibra insegura

na salga
faz sede
o sangue seca
e as escamas cobrem os homens
ao sol

e é nesse lugar
na cal dos ossos
no seu chão de sal
que as crianças brincam com a vida.

enterram os rostos na areia
e depois riem
com os olhos húmidos.

Arnaldo Santos

quarta-feira, 29 de maio de 2013

Vinhas de longe...

vinhas de longe e cantavas:
"busco-te, sou tua."
- eu não acreditava
nessa voz milagrosa feita de sol e mar,
de terra e lua.

(os mais velhos ralhavam, ciumentos,
que ainda éramos monandengues,
para podermos lançar aos ventos
o nosso poema de amor.)

chegavas e dizias,
com toda a energia e encanto do teu ser
(menina-mulher,
anunciando de madrugada
a criação dos dias):
"toma-me, sou tua..."
- o meu corpo, queimado pelo fogo das queimadas,
não soube receber
a tua alma tão lírica e tão nua,
levemente rosada.

ando perdido entre tudo e nada,
atrás da voz que fugia (foge):
"eu busco-te... busco..."
(o antigo sol da manhã e lusco-fusco.)

tento prender no meu braço
o eco da tua imagem que se esfuma ao longe:
"toma-me... tua..."

a noite é imensa, negra, sem lua.
só eu, só eu, no espaço!

Geraldo Bessa victor

segunda-feira, 27 de maio de 2013

Lembrança sem remédio, de ti

no abandono desta tarde, 
cá me perco
sem já sequer a coragem de inventar-te
imaginada nos meus braços...

lenta e infinita, arde
nos espaços,
esta angústia afiada, que não grito,
mas me sobe
e sabe na boca,
ao sal mais amargo do meu corpo...

e canto!...

António Cardoso

sexta-feira, 24 de maio de 2013

Uma quadra

que dos céus as estrelas desçam esculpidas em mármore
e se abatam em mim na dureza pétrea e existente;
e do chão abafado e maldito onde não desponta árvore
crescerá num volume duro meu canto humano e quente.

António Jacinto

quarta-feira, 22 de maio de 2013

A erosão

a erosão não é
tão rara como parece;
na mais suave das encostas
a erosão acontece.

a erosão não é
tão rara como parece:
em todas as linhas de água
a erosão acontece.

Ernesto Lara Filho

segunda-feira, 20 de maio de 2013

E eu era o teu Kwanza...

e eu era o teu kwanza
caudaloso
e tortuoso
destreza
a farfalhar as margens
das tuas paragens!

um kwanza vaidoso
e sinuoso
a fundir a doçura
do meu açucar
na salgadura
das ondulações do teu mar!

ou ainda a nostalgia
dum pôr-do-sol a entardecer
a luz do teu dia
eu era a delicadeza
duma brisa
a sussurrar-te o amanhecer!

era a noite solitária
a beijar a insónia
da tua madrugada
uma mania
d'aurora adiada
na maré da tua praia!

era a melodia
do trecho
do canto dum riacho
harmonia
d'aguas a batucarem pedras
e a polirem lascas ásperas!

um aceno distante 
no anoitecer
da tua noite
dormida-acordada
eu era o kuanza da tua almofada
a balbuciar-te o alvorecer!

Décio Bettencourt Mateus

Décio Bettencourt Mateus nasceu em Menongue. É membro da União de Escritores Angolanos.


sexta-feira, 17 de maio de 2013

Tristeza


espelho a minha tristeza
nas águas mansas do rio
e o vento nos salgueirais
sopra uma mágoa gelada
que vem dos longes de mim…

no momento em que no fundo,
no lodo que há no fundo,
eu sinto a pedra ao pescoço
e o peso da minha dor,
o vento nos salgueirais
tem um som de melodia…
(melodia entre vitrais,
cor e som de emoção
profunda penetração
do eco da minha infância…).

alarga-se um circulo breve
na superfície serena…

nas águas mansas do rio
espelho a minha tristeza…

Amélia Veiga

quarta-feira, 15 de maio de 2013

Tempo bassulado


conseguimos
com o vento nos cabelos
bassular o tempo
cortar as amarras
e fugir…
voar como pirilampos
por cima das montanhas
e dos vales
resplandecentes de luz…
correr pelas praias
de cinza vulcânica
com cristais de sal
brilhando nos corpos nus…
e os nossos olhos
abertos ao horizonte
buscavam perdidamente
aquilo que de nós
ficou ecoando
numa outra dimensão…
… as ondas
como tambores
faziam fluir até nós
orgias crepusculares
que nos incendiavam…
comungámos assim
dia após dia
oceânicas tristezas
diluindo o tempo
ao contacto puro
do gelado elemento…
cantámos ternura em cada abraço
e sembámos velhos ritmos
que nos deram vida…

da árvore perdida
voltámos a percorrer
os seus eumbos…
da terra largada
voltámos a ser felizes
no seu solo…

Jorge Arrimar

segunda-feira, 13 de maio de 2013

Aroma

  para dinah

os bagos da romã
- rubis escarlates, hialinos -
são moléculas de suco e açúcar;
são beijos dos teus lábios
pétalas de amora
pomar de ternura
e aroma de romã. 

Namibiano Ferreira

sexta-feira, 10 de maio de 2013

Ochandala

chegou o cacimbo
a terra secou
capim foi queimado
ochandala ficou.
ochandala é esperta
guardou no seu seio
a água precisa
pra todo cacimbo.
depois as queimadas
tudo é fuligem
não existe nos campos
o verde viçoso
mas ochandala está viva
de um verde esmaiado.
ochandala é vaidosa
vaidade não morre,
não pode morrer!
ochandala tem escola
não pode morrer!
brilhantina barata
não custa dinheiro
desfrizador da carapinha da negra vaidosa...
ochandala é formiga
que guarda comida
pra quando não há.

Ruy Burity da Silva

quarta-feira, 8 de maio de 2013

Entre vermelho vivo

as botas pisam na palha rasteira.
pronto para o combate movo-me.

o napalm calcionou as pedras.
falam baixo

os movimentos quando
o inimigo no passo fantasma...

o primeiro tiro morde-lhe
entre vermelho vivo...

David Mestre

segunda-feira, 6 de maio de 2013

Lamento do pagão cativo

debruço-me sobre troncos mirrados,
gelados
pelo luar,
e vejo fogo, seios nus a arfar
em delírios
de círios
a brilhar...

mordo seios feridos!
meus dentes são rugidos
de pantera.

espero...
e rápido como a carne,
cerro
meus dedos de fera.

só! o meu tormento é a carne!

Tomaz Kim



domingo, 5 de maio de 2013

sexta-feira, 3 de maio de 2013

Minha mãe

minha mãe que nunca esqueço
ninho de amor
sem igual!
à tua afeição me aqueço,
ao teu querer
imortal!

beijo de longe os teus olhos
nos orvalhos
que os inundam!
macios sinto os escolhos
nas arestas que os circundam!

oh minha mãe
minha santa.
como é que te hei-de esquecer,
se és tu quem alto levanta
nobre, a missão
da mulher.

bendita seja o teu seio
em que o meu seio 
geraste!

e o que seria de mim
flor quase murcha na haste
se unindo ao teu
meu anseio
à distância
que nos cala
não sentisse o teu amor.

amor que nunca tem fim...
amor que aos mais
não se iguala!...

Maria Joana Couto

quarta-feira, 1 de maio de 2013

Três desejos para a noite

1
noctívagos vagando pelas ruas
o vosso canto mudo repetimos.
noctívagos vagando, quantas luas
quantas luas no céu não pressentimos!

2
verdianos na rua que passais
cara de lua ao céu, cara de lua,
verdianos, nas mornas que tocais,
cantai nossa saudade bela e nua.

3
canoas flutuando sobre as águas,
recortes negros dos corpos contra o céu,
vinde trazer-me a vossa quietação,
dongos sombrios, quietos, como eu.

(sou-me dongo flutuando em minhas mágoas)

Mário António