sexta-feira, 19 de abril de 2013

Rusga


entre o casario sonolento
mal despido ainda das brumas da noite
mergulhado ainda na quietude da manhã
movem-se vultos febris
homens em actividade desusada.

o negrinho enrolado num pano roto
sonhava com balões
com danças
sonhava com o carnaval
mas acorda afinal
ao som forte dos apitos
aos berros e gritos
dos cipaios lá fora
e na inocência da idade
sem medir toda  amargura
do drama que se desenrola,
exclama com o medo na voz:
                   “Eué…, tem rusga!!”

tem rusga no musseque
entre as cubatas de lata
entre as casas de madeira
rusga com cipaios
ferozes, mal encarados
procurando se emboscar
atrás de casa mulembeira.
no musseque mal desperto
no silêncio dos becos estreitos
soam correrias e gritos
ecoam bofetões e açoites.
a rusga continua lá fora
interrompendo o sonho longo
dos garotos sem agasalho
enquanto na cubata de capim
uma pobre negra chora
o homem preso na rusga.

e as crianças sobressaltadas
de olhar aterrorizado
ouvem os gritos, os apitos
ouvem o pranto dos aflitos
o tropel dos perseguidos
e apertam-se mais nos panos
tiritando de frio
ou talvez do medo
sem forças mesmo para dizer
na sua vozita sumida:

            “Eué… tem rusga!!”

Jofre Rocha

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