quarta-feira, 17 de abril de 2013

Para além da poesia

lá no horizonte
o fogo
e as silhuetas dos embondeiros
de braços erguidos
no ar o cheiro verde das palmeiras queimadas

poesia africana

na estrada
a fila de carregadores bailundos
gemendo sob o peso da crueira
no quarto
a mulatinha de olhos meigos
retocando o rosto com rouge e pó-de-arroz
a mulher debaixo dos panos fartos remexe as ancas
na cama o homem insone pensando
em comprar garfos e facas para comer à mesa

no céu o reflexo do fogo
e as silhuetas dos homens negros batucando
de braços erguidos
no ar a melodia quente das marimbas

poesia africana

e na estrada os carregadores
no quarto a mulatinha
na cama o homem insone

os braseiros consumindo
consumindo
a terra quente dos horizontes em fogo.


Agostinho Neto

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