segunda-feira, 29 de abril de 2013

Noite de chuva

noite de chuva
é braseiro sem lume
não tem lua, nem estrelas

irmão, acende tua vela
e guarda a chama
hiena rondando teme a luz
e fogo se dá sem se ficar com menos

noite de chuva
é braseiro sem lume
não tem lua, nem estrelas

Arlindo Barbeitos

domingo, 28 de abril de 2013

ÓSCAR RIBAS






Escritor, jornalista e etnólogo, Ribas nasceu em Luanda em 1909 e morreu em Lisboa em 2004.
Destacou-se no domínio da investigação social. A sua obra está marcada pela pesquisa e divulgação de temas de literatura oral, filologia, religião tradicional e filosofia, principalmente dos povos de língua kimbundu.
Foi distinguido com vários prémios e homenagens, entre as quais a Medalha Gonçalves Dias pela Biblioteca Nacional do Rio de Janeiro e o Diploma de Mérito da Secretaria de Estado da Cultura.

sexta-feira, 26 de abril de 2013

Além da forma das sementes

todas as palavras de um ngoma são
lamentos da civilização. tudo o que
pronuncio é um continente sobre
a memória dos ngomas

mas cada língua é uma nação de conversas
fortalece a raça do espírito o poema da
plebe

e este povo-irmão dissemina na minha
memória o continente erguido da semente

João Tala

quarta-feira, 24 de abril de 2013

O canto da noite

por que bebes o meu vinho, amigo
como se fosse o último
um vinho que te amarga a boca e perfuma as vestes
enquanto um coração de sinos toca
a descompasso, com palavras amargas
que te povoam a garganta

nas mãos desfaz-se o copo
vício antigo
de amassar a massa de deus
soprar os ventos
despertar o espírito do vinho
plantar a despedida
sobre o canto da noite.

Paula Tavares

segunda-feira, 22 de abril de 2013

Para depois

não vale a pena adormecer o mar
que nós amamos por estar acordado
que a travessia é sempre atravessar
as vagas mais dispersas deste tempo
sempre para depois e mais alado.

e as conchas que encontramos quando brilham
serão as conchas do amanhã de ver
ou serão apenas o museu das coisas
do que será o ontem do hoje do nosso querer?

sorri assim com dentes de uma fruta
amadurecida num verso que não faço
tragando amor o nosso grande espaço
de amar que mais além
de nós o que é possível
este sabor de mar em gerações.
percorre amor geográfico desenho
da terra decifrada entre nós dois
tua palavra de um tempo que detenho
de amar o tempo sempre p'ra depois.

Manuel Rui

domingo, 21 de abril de 2013

sexta-feira, 19 de abril de 2013

Rusga


entre o casario sonolento
mal despido ainda das brumas da noite
mergulhado ainda na quietude da manhã
movem-se vultos febris
homens em actividade desusada.

o negrinho enrolado num pano roto
sonhava com balões
com danças
sonhava com o carnaval
mas acorda afinal
ao som forte dos apitos
aos berros e gritos
dos cipaios lá fora
e na inocência da idade
sem medir toda  amargura
do drama que se desenrola,
exclama com o medo na voz:
                   “Eué…, tem rusga!!”

tem rusga no musseque
entre as cubatas de lata
entre as casas de madeira
rusga com cipaios
ferozes, mal encarados
procurando se emboscar
atrás de casa mulembeira.
no musseque mal desperto
no silêncio dos becos estreitos
soam correrias e gritos
ecoam bofetões e açoites.
a rusga continua lá fora
interrompendo o sonho longo
dos garotos sem agasalho
enquanto na cubata de capim
uma pobre negra chora
o homem preso na rusga.

e as crianças sobressaltadas
de olhar aterrorizado
ouvem os gritos, os apitos
ouvem o pranto dos aflitos
o tropel dos perseguidos
e apertam-se mais nos panos
tiritando de frio
ou talvez do medo
sem forças mesmo para dizer
na sua vozita sumida:

            “Eué… tem rusga!!”

Jofre Rocha

quarta-feira, 17 de abril de 2013

Para além da poesia

lá no horizonte
o fogo
e as silhuetas dos embondeiros
de braços erguidos
no ar o cheiro verde das palmeiras queimadas

poesia africana

na estrada
a fila de carregadores bailundos
gemendo sob o peso da crueira
no quarto
a mulatinha de olhos meigos
retocando o rosto com rouge e pó-de-arroz
a mulher debaixo dos panos fartos remexe as ancas
na cama o homem insone pensando
em comprar garfos e facas para comer à mesa

no céu o reflexo do fogo
e as silhuetas dos homens negros batucando
de braços erguidos
no ar a melodia quente das marimbas

poesia africana

e na estrada os carregadores
no quarto a mulatinha
na cama o homem insone

os braseiros consumindo
consumindo
a terra quente dos horizontes em fogo.


Agostinho Neto

segunda-feira, 15 de abril de 2013

Canção desejada

a canção desejada
e que não há
na voz amordaçada
que o cerco nos dá,

busca-se como se fosse 
a derradeira canção
que o náufrago trouxe
afogada no coração...

e neste limite
me torturo,
sem poder que evite
O CERCO DO MURO...

mas o impossível seria
se não te soubesse
fazer
clara como o dia
que vai nascer...

António Cardoso

domingo, 14 de abril de 2013

sexta-feira, 12 de abril de 2013

Canção de embalar meninos negros

"Para ser cantado por um macio coro de anjinhos com um fundo de música de violino e órgão litúrgico, muito suave. Às vezes ouve-se um soluço, mas isso não é da partitura..."



o negro já não é fera

nem curiosidade de feira...

o negro já não assusta

nem diverte

as grandes crianças brancas...

(pelo menos de pele branca...)

o negro hoje é bom,

e é sério,

não ri...

o negro, hoje, trabalha,

calado e certo como uma máquina...

sai à pesca do atum

e às vezes morre no mar...

(e é uma maçada,

porque os contratados são poucos...)

e corta o céu de lado a lado com a enxada...

e às vezes leva pancada...


António Neto


quarta-feira, 10 de abril de 2013

Exprimo-me pelo silêncio

exprimo-me pelo silêncio
em torno de mim decretado.
cumpro pena de ausência
por insubmissão
e reincidência.
vivo no segredo sintonizado de quem me sabe.
sou
na negação com que me afirmam.
reconhecem-me omitindo-me,
logo existo.
por isso resisto.
o exílio é a pátria
que me confirma
no meu país confiscado,
onde a nação abortou.
oiço-lhe os gritos
e como outrora
busco as sementes de uma nova aurora
entre as raízes
que ainda o são.
estou presente
queiram ou não
os meus juízes.

Manuel dos Santos Lima

segunda-feira, 8 de abril de 2013

Sonho

oh! volúpia de sonhar...
volúpia de partir
para onde só há névoa e fumo,
sem bússolas a nortear!...
volúpia de dormir indefinidamente
de levantar castelos inacessíveis
com escadas tecidas de cabelos!...
de moldar com raiva, e com prazer,
entre mãos frágeis,
aquilo que não poderá ser!...
oh! volúpia de fechar os olhos,
e morrer um pouco...
ainda se a vida passasse,
e não continuasse...

sem se dar conta que eu sonho!...
mas o meu sonho é morte...
e a vida não pára mais...

Alda Lara

domingo, 7 de abril de 2013

sexta-feira, 5 de abril de 2013

Dúvidas

as árvores penetram as raízes da noite.
as folhas cristalizam as águas do tempo
precipitando os dramas do fumo
nos raios por onde passaram as árvores.

os raios descobrem-se novos caminhos
condensam o tempo que arrefece as folhas
nos voos ensanguentados e desnudados.

quem irá arrefecer as folhas
e cristalizar as águas?
as sombras enquanto sobrevivem
parecem estar sem a luz da noite.

João Maimona

quarta-feira, 3 de abril de 2013

Conselho ao recém-chegado

sente com os cinco sentidos
bem humildes
aprende a ver
aprende a ouvir
o pulsar do coração da terra
... esquece esses rumores de guerra...
cheira a aroma que vem do mato quando chove.
apalpa com os teus dedos o fruto
ainda verde que o destino guarda
verás que eu tenho razão...
o que não aprendeste
foi a sentir angola
de dentro para fora
porque ela não mora
no teu coração...

Neves e Sousa

segunda-feira, 1 de abril de 2013

Passarinho

concupíscio o cuco
para acontar-me
batidas.
rios na madeira
para aquecimento
de ouvidos.
[tuc tuc tuc tuc]
cócegas na árvore
para aquecidos
ouvimentos.
um cuco:
dócil martelo.
um tranquilizador de florestas.
ele, o soba dos ecos,
hipnotizador dos silêncios...

Ondjaki