quarta-feira, 13 de março de 2013

Pântano (uma história de musseque)

minina feiosa
estava cheia de desejos
e não fazia nada
ficava na janela desgostosa
a pensar aí a imaginar beijos
e carícias no seu coração de abandonada

minina feiosa
cheia de desejos
não fazia nada
nos olhos feios piquininos
havia sempre uma luz quente
e olhando os mininos da rua
ficava com ânsia ardente
de ser mãe deles - e olhava-se no espelho nua

era desejo só desejo
a tortura a rasgar o seu corpo
porque não lhe devam beijo
em todo corpo feio mas não morto

se o corpo mais que a alma sentia
e se todo ele existia 
porquê porquê ai porquê
a insatisfação que se sente e não se vê?

porquê?
interrogações e ânsias
sem beijos nem carícias
e o corpo a pedir
a adivinhar
sem saber o que pedir
sem saber porquê chorar

solidão
e os desejos e os desejos a crescer
e a minina feiosa sem nada fazer

essa minina feiosa
que estava cheia de desejo
agora virou quitata
não mais fica na janela a olhar os mininos da rua

nem sonha ao espelho nua
as noites de estrelas a lua
nada dizem - nem mesmo vontade de chorar

na sua casa entra gente e mais gente
seu corpo é pegado por mãos e mais mãos
seus olhos já não têm brilho ardente
e os beijos
já não são desejos

o caminho é livre - não tem roteiro
caminha quem quer e traz dinheiro
- no musseque tem uma mulata
é coisa barata

a solidão, a solidão continua

minina feiosa
- que não sabe o nome dos caminhos da esperança -

hoje faz tudo tudo tudo
inda tem a alma cheia de desejos
a pensar aí a imaginar outros beijos...

António Jacinto

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