segunda-feira, 18 de março de 2013

Ode urbana

hoje não vou ter contigo, minha querida,
ainda que a meiguice me domine
e exerça em mim uma força magnética
que apaga as tuas palavras fúteis
e te reduz a um afago sublime,
não vou ter contigo no musseque prenda.
não quero ouvir falar de lenine
nem da formidável revolução soviética
que aprendeste nos livros,
minha querida.
nem da bravura singular de hoji ya henda,
a quem nunca deste um beijo de ternura
apesar da ternura que há na tua vida.
nem no quatro de fevereiro estilizado
e conservado dentro de uma urna
- fogo de brasas que não arde,
porque nunca foi espevitado.

vou por aí,
sob o sol da tarde.
vou andar sem ti, pela extensa avenida
perscrutando o rosto soturno
daqueles que mal olham por seu turno
como se o drama deles fosse a minha vida.
vou estar em toda a parte, de muitas maneiras.
em busca do teu modo impertinente
de me refazer com graça infantil.
vou andar à sorte das caras prazenteiras
que cruzarão comigo demoradamente,
com a alegria das crianças no recreio.
vou piscar o olho a toda a gente
e fazer um convite à quitandeira
que me vender o repolho mais subtil,
que me lembre a calote do teu seio.
vou recordar a maria da fonte
sobre o pedestal - enorme e mamalhuda -
com a beleza magnífica e felpuda
da grande migália do brasil
- a sua imensa mão calcária,
que empunhava uma espada de damôcles
como um falo de bronze antigo,
jaz agora partida e solitária
num canto do quintal do meu amigo.

hoje não vou ter contigo, 
minha querida do musseque prenda.
e todavia,
vou procurar-te com arte em toda a parte,
na alegria dum rosto aventureiro
entre os rostos que vão rua fora.
vou pensar em ti, na doçura de mel
das ondas do teu corpo marinheiro,
sem escutar o teu frasear de menina,
junto aos ângulos da muralha esmagadora
da velha fortaleza de s. miguel.

vou recuperar-te, terna e franzina
nas velhas paredes, ou em cada esquina
caprichosamente envelhecida
do palácio de don'ana joaquina.
vou entrar lá dentro, mudo e quieto.
andarei pelo salão que dorme,
onde as paredes são um livro aberto.
andarei pelo pátio, que a verdura cobre
dum vestido selvático e informe,
onde gemeram escravos de destino incerto,
onde germinaram amores de poeta.
vou procurar a sacada nobre
onde eu seja romeu e tu julieta.

e ao cair da noite proletária
sobre as ruas agora desertas,
procurar-te-ei no voo dos insectos
que rodopiam em dança funerária
nas luzes sombrias da avenida deolinda.
talvez te encontre de asas abertas,
ventre chamuscado, cheirando ainda
teus voluptuosos perfumes de ambaka
que o meu ter-te sempre eterniza.

voltarei à cidade baixa e quente
com sabor de kisaka e odores de muamba,
em busca da cilada traiçoeira,
da facada cruel e precisa,
que seja diferente
das tuas vagas carícias de brisa.
andarei pelas ruas da mutamba
olhando sobranceiramente
- com a segurança de sua santidade -
mulheres que se dizem retornadas
dum passado de que foram sonegadas.
na penumbra que escamoteia a verdade,
camuflando um perigoso companheiro,
elas aguardam os homens de dinheiro
escrevendo o dia-a-dia na cidade.

e tudo isso eu farei por ti, amor,
à procura do teu sabor na vida.
e todavia,
se ao longo dessa busca não te vir florida
neste caminho de sangue e de alegria,
se te souber esquecida no musseque prenda,

não venhas ter comigo, minha querida!
não venhas ofender a noite estupenda
de violência, de dor, de sórdidos amores,
sob um lampadário... à porta de uma venda
algures
na rua dos mercadores...

Henrique Abranches


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