sexta-feira, 22 de março de 2013

Inútil


inútil beber o perfume
de estrelas ignoradas…
inútil encharcar os olhos
na neblina azul das madrugadas…

inútil este meu escancarar
de secretas cadeias…
inútil a comoção
que me percorre as veias…

inútil o esforço heróico
do meu ventre…
a esperança está morta
… ou doente…

pássaro, que esvoaças
num céu que o sol enfeita,
não pressentes o tiro
que te espreita?

semente, que irrompes
alucinada de calor e terra,
não pressentes a bota
que te calca e enterra?

música que te evolas
em ritmos de cor e poesia,
não presentes o trovão
que te confunde a agonia?

vida,
que brilhas nos olhos das crianças,
para que mentes,
para que enfeitas de luas e esperanças
os teus cancros de pus?

vida!
para que nos serves lama
em bandejas de luz?

Amélia Veiga

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