domingo, 31 de março de 2013

sexta-feira, 29 de março de 2013

Poemas ao sol

Poema III



se era porque
as cores se acendessem
dos seus morros e verdes dos capins

ou porque
a claridade berridasse as sombras
das suas covas de mistérios

se era porque
ardesse um clarão
nos brados dos homens no trabalho

ou porque
nos olhos brilhassem
o relâmpago da chuva nova sementeira

o sol
no golpe a pique do meio-dia
é fogueira
é luz pura
como um silêncio
que a todos nos queima
e reduz
os rostos nos traços duros da vida
e os músculos nos troncos nus
de cada um nos seus sonhos.

se era porque
de mim nascesse
um sol de força
ou porque
de mim se ateasse
o sol do tempo
eu também me consumo
no desejo de ser semente e ser raiz.
eu também.

Arnaldo Santos

quarta-feira, 27 de março de 2013

Os pássaros

1.
do ovo
os pintaínhos pintaram de europa
a áfrica
mapa-luto chamado rosa
não gemeremos mais a gema

2.
do gemido dos povos os pássaros que fazem gemadas

Jorge Macedo

segunda-feira, 25 de março de 2013

Drama íntimo

não se pode exprimir o sentimento
pela palavra humana, pela fala,
sem que se veja, enfim, que ainda cala,
dentro do seio, o máximo tormento.

a dor é como a onda, como o vento,
que nos arrasa, que nos avassala...
- mas para quê, contudo, publicá-la?...
quem ouve? quem socorre? vão lamento...

sofre, disfarça; tem heroicidade
para esconder a mágoa que te invade,
para prender o ciúme que te abrasa.

a nossa vida exterior (a tua,
a minha), a nossa vida é como a rua...
- a nossa alma é como a nossa casa...

Geraldo Bessa Victor

domingo, 24 de março de 2013

Monumento dedicado aos Heróis de 4 de Fevereiro

sexta-feira, 22 de março de 2013

Inútil


inútil beber o perfume
de estrelas ignoradas…
inútil encharcar os olhos
na neblina azul das madrugadas…

inútil este meu escancarar
de secretas cadeias…
inútil a comoção
que me percorre as veias…

inútil o esforço heróico
do meu ventre…
a esperança está morta
… ou doente…

pássaro, que esvoaças
num céu que o sol enfeita,
não pressentes o tiro
que te espreita?

semente, que irrompes
alucinada de calor e terra,
não pressentes a bota
que te calca e enterra?

música que te evolas
em ritmos de cor e poesia,
não presentes o trovão
que te confunde a agonia?

vida,
que brilhas nos olhos das crianças,
para que mentes,
para que enfeitas de luas e esperanças
os teus cancros de pus?

vida!
para que nos serves lama
em bandejas de luz?

Amélia Veiga

quarta-feira, 20 de março de 2013

Estrela nova

o dia amanheceu tão calmo
que dir-se-ia todo mar e linha d'horizonte

olhámo-nos como se nunca despertados
pressagiando corvos à distância.

um remoinho estreito sacudiu a chana
papagaio de papel de um menino só.

na direcção oposta regressavam companheiros
pó, cinza e suor, estátuas mudas e cansadas.

o ruído repentino anunciou-nos o caminho das trincheiras
e a bomba rebentou depois d'alguns segundos.

caíram muitas mais, dispersas e cobardes
até que o fumo também partiu envergonhado

entre nós apenas um, não era estátua mas bandeira
e sorria fixamente olhando fixamente o sol nascente.

o companheiro que perdemos era jovem
o mais jovem e o melhor entre os melhores.

uma lágrima por sudário o acompanha
e em nós a sua imagem é uma estrela nova,

força capaz de arrastar montanhas, desviar os rios
rios e montanhas de amor, merecendo a vida.

Costa Andrade


segunda-feira, 18 de março de 2013

Ode urbana

hoje não vou ter contigo, minha querida,
ainda que a meiguice me domine
e exerça em mim uma força magnética
que apaga as tuas palavras fúteis
e te reduz a um afago sublime,
não vou ter contigo no musseque prenda.
não quero ouvir falar de lenine
nem da formidável revolução soviética
que aprendeste nos livros,
minha querida.
nem da bravura singular de hoji ya henda,
a quem nunca deste um beijo de ternura
apesar da ternura que há na tua vida.
nem no quatro de fevereiro estilizado
e conservado dentro de uma urna
- fogo de brasas que não arde,
porque nunca foi espevitado.

vou por aí,
sob o sol da tarde.
vou andar sem ti, pela extensa avenida
perscrutando o rosto soturno
daqueles que mal olham por seu turno
como se o drama deles fosse a minha vida.
vou estar em toda a parte, de muitas maneiras.
em busca do teu modo impertinente
de me refazer com graça infantil.
vou andar à sorte das caras prazenteiras
que cruzarão comigo demoradamente,
com a alegria das crianças no recreio.
vou piscar o olho a toda a gente
e fazer um convite à quitandeira
que me vender o repolho mais subtil,
que me lembre a calote do teu seio.
vou recordar a maria da fonte
sobre o pedestal - enorme e mamalhuda -
com a beleza magnífica e felpuda
da grande migália do brasil
- a sua imensa mão calcária,
que empunhava uma espada de damôcles
como um falo de bronze antigo,
jaz agora partida e solitária
num canto do quintal do meu amigo.

hoje não vou ter contigo, 
minha querida do musseque prenda.
e todavia,
vou procurar-te com arte em toda a parte,
na alegria dum rosto aventureiro
entre os rostos que vão rua fora.
vou pensar em ti, na doçura de mel
das ondas do teu corpo marinheiro,
sem escutar o teu frasear de menina,
junto aos ângulos da muralha esmagadora
da velha fortaleza de s. miguel.

vou recuperar-te, terna e franzina
nas velhas paredes, ou em cada esquina
caprichosamente envelhecida
do palácio de don'ana joaquina.
vou entrar lá dentro, mudo e quieto.
andarei pelo salão que dorme,
onde as paredes são um livro aberto.
andarei pelo pátio, que a verdura cobre
dum vestido selvático e informe,
onde gemeram escravos de destino incerto,
onde germinaram amores de poeta.
vou procurar a sacada nobre
onde eu seja romeu e tu julieta.

e ao cair da noite proletária
sobre as ruas agora desertas,
procurar-te-ei no voo dos insectos
que rodopiam em dança funerária
nas luzes sombrias da avenida deolinda.
talvez te encontre de asas abertas,
ventre chamuscado, cheirando ainda
teus voluptuosos perfumes de ambaka
que o meu ter-te sempre eterniza.

voltarei à cidade baixa e quente
com sabor de kisaka e odores de muamba,
em busca da cilada traiçoeira,
da facada cruel e precisa,
que seja diferente
das tuas vagas carícias de brisa.
andarei pelas ruas da mutamba
olhando sobranceiramente
- com a segurança de sua santidade -
mulheres que se dizem retornadas
dum passado de que foram sonegadas.
na penumbra que escamoteia a verdade,
camuflando um perigoso companheiro,
elas aguardam os homens de dinheiro
escrevendo o dia-a-dia na cidade.

e tudo isso eu farei por ti, amor,
à procura do teu sabor na vida.
e todavia,
se ao longo dessa busca não te vir florida
neste caminho de sangue e de alegria,
se te souber esquecida no musseque prenda,

não venhas ter comigo, minha querida!
não venhas ofender a noite estupenda
de violência, de dor, de sórdidos amores,
sob um lampadário... à porta de uma venda
algures
na rua dos mercadores...

Henrique Abranches


domingo, 17 de março de 2013

sexta-feira, 15 de março de 2013

Uxiri

trocar o solo da
escrita. virtude aos 
deuses de-

composta: anca, perna e pé.
longas as galerias

escarpas noites ravinas
este pássaro te pedia:

norte.

entre a noite o fio
uxiri

tem corvo 
que tem côr

David Mestre

quarta-feira, 13 de março de 2013

Pântano (uma história de musseque)

minina feiosa
estava cheia de desejos
e não fazia nada
ficava na janela desgostosa
a pensar aí a imaginar beijos
e carícias no seu coração de abandonada

minina feiosa
cheia de desejos
não fazia nada
nos olhos feios piquininos
havia sempre uma luz quente
e olhando os mininos da rua
ficava com ânsia ardente
de ser mãe deles - e olhava-se no espelho nua

era desejo só desejo
a tortura a rasgar o seu corpo
porque não lhe devam beijo
em todo corpo feio mas não morto

se o corpo mais que a alma sentia
e se todo ele existia 
porquê porquê ai porquê
a insatisfação que se sente e não se vê?

porquê?
interrogações e ânsias
sem beijos nem carícias
e o corpo a pedir
a adivinhar
sem saber o que pedir
sem saber porquê chorar

solidão
e os desejos e os desejos a crescer
e a minina feiosa sem nada fazer

essa minina feiosa
que estava cheia de desejo
agora virou quitata
não mais fica na janela a olhar os mininos da rua

nem sonha ao espelho nua
as noites de estrelas a lua
nada dizem - nem mesmo vontade de chorar

na sua casa entra gente e mais gente
seu corpo é pegado por mãos e mais mãos
seus olhos já não têm brilho ardente
e os beijos
já não são desejos

o caminho é livre - não tem roteiro
caminha quem quer e traz dinheiro
- no musseque tem uma mulata
é coisa barata

a solidão, a solidão continua

minina feiosa
- que não sabe o nome dos caminhos da esperança -

hoje faz tudo tudo tudo
inda tem a alma cheia de desejos
a pensar aí a imaginar outros beijos...

António Jacinto

segunda-feira, 11 de março de 2013

Frustração

hoje queria ter algo de novo
(qualquer coisa de diferente
no marasmo destes dias
sempre iguais)
para te oferecer
como dádiva de carinho

hoje
um dia único na sequência
dos nossos dias sempre marcados
no formar de pensamentos
a recrear alento
para o canto de outro dia

hoje
quisera ter a graça do indefinido
a vibratilidade do oculto
e voltejar místicas expressões
na leitura de teus sonhos
de teus sonhos-meninos

mas hoje que tanto quisera ser
pesam-me as ideias
e a imaginação cansa
como ferro trabalhado
pela inspiração do ferreiro
caindo para o letargo

hoje
tenho o lúbrico dos homens
secos para o amor
divorciado interiormente
daquele saber fazer
dos dias inspirados

hoje
precisamente hoje
que tanto desejava ser

Ruy Burity da Silva

domingo, 10 de março de 2013

sexta-feira, 8 de março de 2013

Colecção de insectos

afastam-se as patas.
levantam-se as asas.
e fixam-se na posição
com uma goma transparente
polimerizada.

(que outra coisa
de nós, homens, fazem
nestes bureaux
acondicionados?)

Mário António

quarta-feira, 6 de março de 2013

A Casa da Velha

para o aníbal melo, pires ferreira
e o zuzarte
companheiros de malange


a casa da velha rosa
fica à entrada do bairro
mesmo ao fundo da rua.

no bairro da estrada
há sempre uma criança
negra
que brinca
nua.

em volta do cercado
que serve de quintal
junto com o muro de adobe
há mandioca e feijão
plantados
sem defesas contra a erosão.

a casa da velha rosa
fica ao fundo da rua.

tem uma sobrinha
a velha
chamada a "palanca negra".

é bela
a sobrinha da velha

é triste 
a casa da velha.

distante da civilização
fica é entrada do bairro
ali ao fundo da rua.

... e há sempre uma criança
negra
que brinca na lama da estrada
nua...

Ernesto Lara Filho




segunda-feira, 4 de março de 2013

Galinhas a cirandar

galinhas a cirandar
teus olhos a brincar
iam depenicando da palha
iam sorrateando da baxana
assim como grãos perdidos
de milho histórias velhas

teus olhos a cirandar
galinhas a brincar
iam sorrateando da palha
iam depenicando da baxana
histórias perdidas assim como
grãos velhos de milho

Arlindo Barbeitos

sexta-feira, 1 de março de 2013

Sangue ardente

teu sangue quente, volúpia ardente
é como brasa
é tentação,
negra escultura, alma dolente,
teu corpo negro,
provocação!

mas se o teu sorriso cantante
chora,
a dor tristonha
da tua sorte,
deixa que um beijo se perca
agora,
noutro desejo
que é vida
e morte!

que dos teus lábios uma promessa,
finde a amargura
de quem amou,
teu ser perfeito
que se formou,
nessa cor negra
que nunca cessa...


Maria Joana Couto