quarta-feira, 27 de fevereiro de 2013

Origens

guardo a memória do tempo
em que éramos vatwa,
os dos frutos silvestres.
guardo a memória de um tempo
sem tempo
antes da guerra,
das colheitas
e das cerimónias.
amada
vestiste os passos da chuva
para assistir ao meu fim.
vens com os mesmos passos
das noites antigas
quando, vestida para o amor,
me preparavas o tempo
com os óleos sagrados da espera.
amada
tens os olhos vermelhos
do sal e da culpa.
os celeiros estão vazios
as crianças sem leite.

Paula Tavares

segunda-feira, 25 de fevereiro de 2013

Cântico fúnebre


de longe,
onde os eumbos
são gargantas gemendo
feitas cavernas do medo…
onde mãos estranhas
tocam tambores
de mutambos numerosos…
onde os enfeitiçadores iniciam
a dança subterrânea
dos mortos-vivos
enquanto dos matos
se elevam odores putrefactos,
eu sinto já
o meu sonho-súplica
desventrado, tingido
com o sangue mártir
dos inocentes…
… e a esperança-sémen
se derramando
no sexo estéril
das longas noites de cacimbo…

Jorge Arrimar

domingo, 24 de fevereiro de 2013

sexta-feira, 22 de fevereiro de 2013

Palavra amor

conheço-a, era uma pálpebra
dormindo no rosto

encrespa o dia desperta o fundo
monstro de um beijo palavra animal
com seus órgãos genitais e
o coração atordoado.

carne da minha carne essa palavra
é uma pálpebra: abre os olhos e respira.

João Tala

quarta-feira, 20 de fevereiro de 2013

Lágrima

I
assim tão de repente
uma enxada pensou que era já chuva
quando esta lágrima caiu

assim tão de repente
um torno
pensou que era suor operário
quando esta lágrima caiu

assim tão de repente
a arma sentinela madrugada
pensou que fosse orvalho
quase nada
quando esta lágrima caiu

assim tão de repente
um livro numa escola
julgou muito inocente
que os professores voltavam a tosar
ia queixar ao camarada presidente
mas viu também as letras a chorar.

II
esta lágrima é grossa
e não escolhe onde cair

caiu no mar
e o mar ficou sem remo
do mar até à praia
os pés sem terra
um silêncio de areia
a onda de perguntas
a demandar o caminho das estrelas.

esta lágrima é grossa
e não escolhe onde cair

e cai ainda mais
de ver cair dos olhos dos meninos
choro sem fim no lenço que era teu
o lenço do futuro

(alguém roubou o sol a este fruto
antes de ser maduro).

Manuel Rui


segunda-feira, 18 de fevereiro de 2013

Promessa


quando a voragem tiver passado
e em nossos olhos enxutos
sentirmos um frémito de esperança

quando a voragem tiver passado
e as faces à nossa volta
espelharem sorrisos francos

quando nos bairros apinhados
o ar outrora nublado
se encher de coros alegres

então
em madrugada serena
pelas ruas sossegadas
iremos de mãos dadas
livremente
ver as flores desabrochar.

Jofre Rocha

domingo, 17 de fevereiro de 2013

sexta-feira, 15 de fevereiro de 2013

Cega-rega

os continentes são as cinco chagas
a ferro e fogo escritas no meu peito
como pétalas murchas de sangue e

o meu sangue é todo o sangue
escorrendo dos quatro pontos cardeais
como lava abafando a minha voz e

a minha voz é una e legião
rasgando a treva em que nos afundámos
como ave liberta subindo o céu e

o meu céu será a alegria
dos que vivem e morrem e sabem.

Tomaz kim

quarta-feira, 13 de fevereiro de 2013

Palavras do desesperado

montanhas de dores
alinhadas e lançadas
entre barreiras infranqueáveis.

velhas.
como a história de deus.
antigas.
como o folhetim de natal.

e as dores não se dissipam.
entre as maravilhas humanas
e as agulhas corporais.

não, não há linguagem
para ensinar aos homens
como destruir as dores - 
quem o fará
para que o homem se realize?

João Maimona

segunda-feira, 11 de fevereiro de 2013

Poema


I
amanhã,
quando morrer,
eu quero ser enterrado
virado para oriente;
de pé,
braços cruzados
à espera que nasça o sol!

quer seja enterro falado
(um enterro burguês a valer),
quer seja de pobre-diabo
eu quero ficar assim:
de pé,
braços cruzados
à espera que nasça o sol!

II
amanhã,
vai nascer um sol maduro
por cima do meu telhado
de menino rico com tudo.
amanhã,
vai nascer um sol maduro
por cima do capim podre
dos meninos pobres sem nada.

depois,
amanhã,
(naquele dia de sol maduro
como goiaba que o morcego quer morder)
o menino rico que mora dentro de mim
mais todos os meninos pobres
que moram dentro do mundo
vamos fazer uma roda grande
e brincar novamente
as brincadeiras do antigamente.

António Cardoso

domingo, 10 de fevereiro de 2013

sexta-feira, 8 de fevereiro de 2013

Poema do tempo do contrato


e às vezes, quase sempre,
havia no lusco-fusco
dos dias um grito
amargo de silêncios
chorado e soluçado
baixinho pela noite
e que ninguém
parecia escutar…
eram vozes ciciadas
orações amordaçadas
nos dormitórios palustres
dos contratados bailundos

Namibiano Ferreira

quarta-feira, 6 de fevereiro de 2013

Aqui no cárcere

aqui no cárcere
eu repetiria hikmet
se pensasse em ti marina
e naquela casa com uma avó e um menino

aqui no cárcere
eu repetiria os heróis
se alegremente cantasse
as canções guerreiras
com que o nosso povo esmaga a escravidão

aqui no cárcere
eu repetiria os santos
se lhes perdoasse
as sevícias e as mentiras
com que nos estralhaçam a felicidade

aqui no cárcere
a raiva contida no peito
espero pacientemente
o acumular das nuvens
ao sopro da história

ninguém 
impedirá a chuva.

Agostinho Neto
(Cadeira da PIDE
Julho de 1960)

segunda-feira, 4 de fevereiro de 2013

Mutilação

meu corpo, lancei-o ao mar,
para que o mar o levasse,
e matasse aos peixes belos,
a fome dos meus anelos...

meus olhos, joguei-os longe!
atirei-os às estrelas solitárias
de uma noite...

doei meus lábios vermelhos
à criança prostituída...
mais! entreguei os meus nervos
aos violinos da vida...

e daqueles longos cabelos,
fiz agasalhos de tiras,
com que embrulhei, ressequidos
os troncos das árvores velhas...

hoje, p'ra alem do meu cansaço,
só me resta o coração,
que continua a bater
transfigurado, no espaço!

Alda Lara

sexta-feira, 1 de fevereiro de 2013

Quitandeira

I
quitandeira dos muceques,
ó minha antiga ama que já me deste mama,
dá-me agora um mamão, dá-me agora uma manga, dá-me
caju, goiaba, laranja!
é o complexo infantil que toma a minha voz
nesta visão em que me escuto
e me transporto de ontem para hoje?
(a saudade é o sabor agridoce do fruto
na boca amarga de homem feito,
que já foi boca doce de menino-de-leite.)

II
quitandeira de mamão, goiaba,
caju, laranja, manga,
- quitandeira que te perdes no abismo
da quitanda da vida,
porque me embriagas?
vem buscar a moeda do lirismo
com que o meu olhar te convida.
(o meu anseio é sede ou fome?
ainda sou menino, ou já sou homem?)

III
quitandeira dos muceques de luanda por onde anda
a minha antiga ama,
dá-me fruta da tua quitanda
(também o corpo, ou só a quinda?),
dá-me, dá-me...

Geraldo Bessa Victor