quarta-feira, 30 de janeiro de 2013

Psicose


 porque teimo
em amarrar o pensamento
com cordas de vento?

não há cave nem prisão
que me guarde o coração!

estou aqui e estou ausente…
sou mulher e sou vidente…

se resvalo na solidão,
logo encontro a tua mão…

entre o passado e o presente
sou uma cor-ambiente…

Amélia Veiga

segunda-feira, 28 de janeiro de 2013

Uma borboleta em Sondela

era uma borboleta futuramente surda: coleccionava ruídos.
barulhos de passarinhos
a pousar
na manhã das árvores;
olhares humanos
[tinha uma preferência por olhares infantis ou sinceros];
excrescências de girafa
sobejadas na areia quente.

era uma borboleta linda

não tinha voz inclinada
para cantar madrugadas,
então praticava voolêncios.
mais não vi.

era uma borboleta que sonhada.

Ondjaki

domingo, 27 de janeiro de 2013

sexta-feira, 25 de janeiro de 2013

Lei

livre, livre mas sem asas.
homem apenas.
a fronte erguida
o olhar em frente
o lábio a sorrir
para a manhã...

os passos
apenas vão seguindo
o que na rasgada treva se adivinha...

os braços construindo
o que é flor, e é fruto,
e é semente,
e flor e fruto
de amanhã...

e vamos:
o mundo que nos leva
vai,
não fica à nossa frente.


Alexandre Dáskalos

quarta-feira, 23 de janeiro de 2013

Poema

junto daquele lugar
esmagaram uma criança.

uma mulher arrepelada
no chão jazia
em alta queixa
no chão carpia.
caída a quinda
caídos os brados
caíam lágrimas e lamentos.

- ai mon'ami, mon'ami...!

junto daquele lugar
tinha morrido uma criança.

soaram passos
vieram gentes
homens, mulheres
surgiram braços,
num burburinho
num murmurar de vozes quentes:
- o que fora?
- que acontecera?
- tinha sido agora?
- e quem morrera?

- anh! foi um pretito...

o filho de fraca macuma
de condição triste
olhar ingrato
que a horas escuras
incertas
cegas
tinha atravessado uma ruela
junto, daquele lugar
tinha morrido uma criança.

Arnaldo Santos

segunda-feira, 21 de janeiro de 2013

Destaca-se vibrátil

fruto do sal
vegetativa haste a emergir
de um chão regado a lágrimas:

a figura do herói
vindo do leste.

catalisa as direcções oblíquas da coragem:
os ventos circundantes de intenção segura
as folhas de papel cruzando o mar
e a revolta de um gesto que detém
a culpa imposta e a pena original.

a clandestina glória
legitima o orgulho
da tensa ostentação colada ao peito nu:
liberta a luz crestante das canções
com que perverte a paz e a dor herdadas.

impõe-se erecto e livre de roupagens.
concentra a sóbria forma e a cor
do adorno essencial com que revela a força renovada
na colectiva comunhão da sede.

impele a voz compacta da torrente
de encontro a um dique de humilhantes bênçãos:

a história que a ciência derrotou;
a despojada cor
contra a barreira espessa dos fuzis;

a fé que feneceu num chão de argila
embranquecido por estações de pranto.

noivo da sombra
está projectado inteiro contra a luz
da esteira que navega
- percursor do sol.

Ruy Duarte de Carvalho