quarta-feira, 28 de novembro de 2012

Uma recordação!

era noite de mui almo luar -
uma noite em que triste pensava
em amores que o tempo roubou-me,
em maria que eu tanto adorava!

toda a terra dormia em silêncio,
só eu triste na terra velava,
nesta terra em que a sorte roubou-me
os amores que eu tanto adorava!

foi aqui!... a minha alma o recorda,
que tão bela e tão meiga me ouvia,
quando a sós nossas juras jurando,
só com ela na terra vivia.

foi aqui que ora alegre, esquecendo
este mundo de espinhos e dor,
contemplava o meu anjo da terra,
me falando só falas de amor!

foi aqui, que ora em beijos frementes
os seus lábios tocavam nos meus,
e suas faces corando de pejo -
me infiltravam delícias dos céus! -

foi aqui!... mas p'ra que recordar
esses dias de gozo passado,
para que? - se fugiu-me a ventura,
se na terra hoje sou desgraçado? -

nesta hora de amarga lembrança,
neste instante de horrível penar,
sinto a dor que nem lágrimas podem
em meu peito fazê-la cessar.

sinto a dor mais cruel e pungente,
no rigor da mais viva saudade -
que perfídia de horrenda traição,
desabrida lançou sem piedade!

oh! mal haja essa mão impiedosa,
que em meus lábios o fel da amargura
me roçou, e me obriga a sofrer
deste mundo a maior desventura!

oh! mal hajam os meus dias de vida,
desta vida de cru vegetar,
que delírios de pranto e tormentos
a existência me intentam roubar!

e tão triste qual rola que geme
e tão murcho, qual flor desfolhada,
e tão estéril, qual erma campina,
e tão mudo, qual fonte estagnada,

hei-de, embora p'ra sempre oprimido
em tão triste e medonha soidão,
adorar-te na vida, e na morte,
conservar em meu peito a paixão!

Maia Ferreira








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