sexta-feira, 16 de novembro de 2012

Poema

quando os deuses souberam que ela existia na terra encheram-se de ciúmes e de cólera, porque aqueles que a conheciam não pensavam mais em deuses...
então prenderam-na e levaram-na para o cimo do monte da morte, onde são executadas as vítimas mais nobres da ira dos deuses, os rivais mais perigosos da glória dos deuses...
amarraram-na a um penedo de granito com cadeias de aço grossas como troncos de palmeira, e soltaram sobre ela o abutre sagrado que lhes serve de algoz para os grandes réus, para que lhe  devorasse o coração e lhe vazasse os olhos... aqueles olhos que tinham roubado ao culto dos deuses a luz do sol e todas as luzes...
ninguém podia escalar o monte nem quebrar as cadeias de aço grossas como troncos de palmeira, porque o ciúme dos deuses tinha desencadeado a sua cólera mais feroz...
longo tempo o abutre negro voou sobre o rochedo...
e eu, na planície, impotente, assistia, cheio de pavor e de confusão àquele lento voo circular que se ia apertando e baixando cada vez mais...
até que o abutre negro se precipitou e desapareceu da minha vista...
então caí ao chão, e apertei a cabeça nos braços para não ouvir os gritos dela;
mas ela não gritou, porque era mais valente que os abutres e todos os deuses...

António Neto

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