segunda-feira, 26 de novembro de 2012

Na pele do tambor

as mãos violentas insidiosamente batem
no tambor africano
e a pele percutida solta-me tam-tams gritantes
de sombras atléticas
à luz vermelha do fogo de após trabalho

esmago-me na pele batida do tambor africano
vibro em sanguinolentas deturpações de mim mesmo
à vontade das percussões alcoólicas 
sobre a pele esticada do meu cérebro

onde estou eu? quem sou eu?

vibro no couro pelado do tambor festivo
em europas sorridentes de farturas e turismos
sobre a fertilização do suor negro
nas áfricas envelhecidas pela vergonha de serem áfricas
nas áfricas renovadas do brilho firme do sol e da transformação
sedosa e explosiva do iniverso
dentro do movimento de mim mesmo na vibração ritmada
da pele cerebral do tambor africano
ritmada para o esforço de dançar a dança suave das palmeiras

vibro
em áfricas humanas de sons festivos e confusos
(que línguas pronunciais em mim irmãos
que não vos entendo neste ritmo?)

nunca me pensei tão pervertido
ó impureza criminosa dos séculos coloniais
(que história é essa da lebre e da tartaruga
que contas neste novo ritmo de fogueira
à noite
minha avozinha de pele negra de áfrica?)

mas tão longe nem tão pervertido
quanto as vibrações
da pele do meu cérebro
esticada no tambor das minas mãos
pela áfrica humana

as mãos entrelaçadas sobre mim
em gozo de vida em gargalhadas em alegrias
de lagos libertados por amplos verdes
para os mares
dão-me o tom da minha áfrica
dos povos negros do continente que nasce
fora dos abismos escurecidos da negação
ao lado de ritmos de dedos congestionados
sobre a pele envelhecida do tambor
dentro do qual vivo e vibro e clamo:
                                                          avante!

Agostinho Neto

1 comentário:

Antonio Cabral Filho disse...

Prezados Senhores, boa noite!
Fico muito feliz em cada visita que faço aos blogs literários de Angola ou de angolanos, pois constato um carinho muito especial com os escritores e poetas do período de Libertação Nacional. Torço para que as Novas Gerações cultivem esse sentimento de continuadores do trabalho iniciado por eles. Fica aqui o meu abraço e a minha gratidão de combatente incansável pela Paz e Liberdade! Antonio Cabral Filho http://honradosindignaivos.blogspot.com.br