quarta-feira, 21 de novembro de 2012

Castigo pro comboio malandro

esse comboio malandro
passa
passa sempre com a força dele
ué ué ué
hii hii hii
te-quem-tem te-quem-tem te-quem-tem

o comboio malandro 
passa

nas janelas muita gente
ai bô viaje
adeujo homéé
nganas bonitas
quitandeiras de lenço encarnado
levam cana no luanda pra vender
hii hii hii
aquele vagon de grades tem bois
múu múu múu

tem outro
igual como este dos bois
leva gente,
muita gente como eu
cheio de poeira
gente triste como os bois
gente que vai no contrato

tem bois que morre no viaje
mas o preto não morre
canta só sua tristeza
"mulonde uá kessua uadibale
uadibalé uadibalé..."
esse comboio malandro
sozinho na estrada de ferro
passa
passa
sem respeito
ué ué ué
com muito fumo na trás
hii hii hii
te-quem-tem te-quem-tem te-quem-tem

comboio malandro
o fogo que vai no corpo dele
vai na casa dos pretos e queima
esse comboio malandro
já queimou o meu milho

se na lavra do milho tem pacassas
eu faço armadilhas no chão,
se na lavra tem kiombos
eu tiro a espingarda de kimbundo
e mato neles
mas se vai lá fogo do comboio malandro
- deixa! - 
ué ué ué
te-quem-tem te-quem-tem te-quem-tem
só fica fumo,
muito fumo mesmo.

mas espera só
quando esse comboio malandro descarrilar
e os brancos chamar os pretos pra empurrar
eu vou
mas não empurro
- nem com chicote -
finjo só que faço força
aka!

comboio malandro 
você vai ver só o castigo
vai dormir mesmo no meio do caminho.

António Jacinto