sexta-feira, 30 de novembro de 2012

Grito de desespero


o fogo no turbilhão da distância…
as massembas da loucura
dando-se todas
aos ritmos alucinados
das marimbas
chamando os feiticeiros
à orgia da carne proibida…
e os meus sonhos
perdendo-se na distância
são mulolas tocando o ocaso
coberto de fumo…

que o meu grito de desespero
se crave nesta hora
no peito dos homens
que amam a guerra
e o choro das mães
perdendo os seus filhos
no escuro
das noites invadidas…

Jorge Arrimar

quarta-feira, 28 de novembro de 2012

Uma recordação!

era noite de mui almo luar -
uma noite em que triste pensava
em amores que o tempo roubou-me,
em maria que eu tanto adorava!

toda a terra dormia em silêncio,
só eu triste na terra velava,
nesta terra em que a sorte roubou-me
os amores que eu tanto adorava!

foi aqui!... a minha alma o recorda,
que tão bela e tão meiga me ouvia,
quando a sós nossas juras jurando,
só com ela na terra vivia.

foi aqui que ora alegre, esquecendo
este mundo de espinhos e dor,
contemplava o meu anjo da terra,
me falando só falas de amor!

foi aqui, que ora em beijos frementes
os seus lábios tocavam nos meus,
e suas faces corando de pejo -
me infiltravam delícias dos céus! -

foi aqui!... mas p'ra que recordar
esses dias de gozo passado,
para que? - se fugiu-me a ventura,
se na terra hoje sou desgraçado? -

nesta hora de amarga lembrança,
neste instante de horrível penar,
sinto a dor que nem lágrimas podem
em meu peito fazê-la cessar.

sinto a dor mais cruel e pungente,
no rigor da mais viva saudade -
que perfídia de horrenda traição,
desabrida lançou sem piedade!

oh! mal haja essa mão impiedosa,
que em meus lábios o fel da amargura
me roçou, e me obriga a sofrer
deste mundo a maior desventura!

oh! mal hajam os meus dias de vida,
desta vida de cru vegetar,
que delírios de pranto e tormentos
a existência me intentam roubar!

e tão triste qual rola que geme
e tão murcho, qual flor desfolhada,
e tão estéril, qual erma campina,
e tão mudo, qual fonte estagnada,

hei-de, embora p'ra sempre oprimido
em tão triste e medonha soidão,
adorar-te na vida, e na morte,
conservar em meu peito a paixão!

Maia Ferreira








segunda-feira, 26 de novembro de 2012

Na pele do tambor

as mãos violentas insidiosamente batem
no tambor africano
e a pele percutida solta-me tam-tams gritantes
de sombras atléticas
à luz vermelha do fogo de após trabalho

esmago-me na pele batida do tambor africano
vibro em sanguinolentas deturpações de mim mesmo
à vontade das percussões alcoólicas 
sobre a pele esticada do meu cérebro

onde estou eu? quem sou eu?

vibro no couro pelado do tambor festivo
em europas sorridentes de farturas e turismos
sobre a fertilização do suor negro
nas áfricas envelhecidas pela vergonha de serem áfricas
nas áfricas renovadas do brilho firme do sol e da transformação
sedosa e explosiva do iniverso
dentro do movimento de mim mesmo na vibração ritmada
da pele cerebral do tambor africano
ritmada para o esforço de dançar a dança suave das palmeiras

vibro
em áfricas humanas de sons festivos e confusos
(que línguas pronunciais em mim irmãos
que não vos entendo neste ritmo?)

nunca me pensei tão pervertido
ó impureza criminosa dos séculos coloniais
(que história é essa da lebre e da tartaruga
que contas neste novo ritmo de fogueira
à noite
minha avozinha de pele negra de áfrica?)

mas tão longe nem tão pervertido
quanto as vibrações
da pele do meu cérebro
esticada no tambor das minas mãos
pela áfrica humana

as mãos entrelaçadas sobre mim
em gozo de vida em gargalhadas em alegrias
de lagos libertados por amplos verdes
para os mares
dão-me o tom da minha áfrica
dos povos negros do continente que nasce
fora dos abismos escurecidos da negação
ao lado de ritmos de dedos congestionados
sobre a pele envelhecida do tambor
dentro do qual vivo e vibro e clamo:
                                                          avante!

Agostinho Neto

sexta-feira, 23 de novembro de 2012

Os nossos céus

há anos que atravesso os céus.
sinto-os desfalecidos, esses céus deslumbrados
como a matéria que arde na natureza,
como o pobre que alumia o sofrimento.

quem seremos sem os céus?

olha, há anos em que os céus são facultativos.
e assim os céus não arrefecem o nosso tecto
o nosso corpo que é pombo infecundo.

desse mundo fecundo onde chovem lágrimas
dos céus nas manhãs vestidas de sede.

João Maimona

quarta-feira, 21 de novembro de 2012

Castigo pro comboio malandro

esse comboio malandro
passa
passa sempre com a força dele
ué ué ué
hii hii hii
te-quem-tem te-quem-tem te-quem-tem

o comboio malandro 
passa

nas janelas muita gente
ai bô viaje
adeujo homéé
nganas bonitas
quitandeiras de lenço encarnado
levam cana no luanda pra vender
hii hii hii
aquele vagon de grades tem bois
múu múu múu

tem outro
igual como este dos bois
leva gente,
muita gente como eu
cheio de poeira
gente triste como os bois
gente que vai no contrato

tem bois que morre no viaje
mas o preto não morre
canta só sua tristeza
"mulonde uá kessua uadibale
uadibalé uadibalé..."
esse comboio malandro
sozinho na estrada de ferro
passa
passa
sem respeito
ué ué ué
com muito fumo na trás
hii hii hii
te-quem-tem te-quem-tem te-quem-tem

comboio malandro
o fogo que vai no corpo dele
vai na casa dos pretos e queima
esse comboio malandro
já queimou o meu milho

se na lavra do milho tem pacassas
eu faço armadilhas no chão,
se na lavra tem kiombos
eu tiro a espingarda de kimbundo
e mato neles
mas se vai lá fogo do comboio malandro
- deixa! - 
ué ué ué
te-quem-tem te-quem-tem te-quem-tem
só fica fumo,
muito fumo mesmo.

mas espera só
quando esse comboio malandro descarrilar
e os brancos chamar os pretos pra empurrar
eu vou
mas não empurro
- nem com chicote -
finjo só que faço força
aka!

comboio malandro 
você vai ver só o castigo
vai dormir mesmo no meio do caminho.

António Jacinto


segunda-feira, 19 de novembro de 2012

Nós


e agora
que o céu escureça
que as aves emudeçam
que sequem os rios nas nascentes
que o mar se rebele
que o coração ígneo da terra
vomite lava e peçonha…

agora
que venham os ventos
do norte e do sul

continuaremos
aguardando a flor primeira
que eclodir no amanhecer

Jofre Rocha

sexta-feira, 16 de novembro de 2012

Poema

quando os deuses souberam que ela existia na terra encheram-se de ciúmes e de cólera, porque aqueles que a conheciam não pensavam mais em deuses...
então prenderam-na e levaram-na para o cimo do monte da morte, onde são executadas as vítimas mais nobres da ira dos deuses, os rivais mais perigosos da glória dos deuses...
amarraram-na a um penedo de granito com cadeias de aço grossas como troncos de palmeira, e soltaram sobre ela o abutre sagrado que lhes serve de algoz para os grandes réus, para que lhe  devorasse o coração e lhe vazasse os olhos... aqueles olhos que tinham roubado ao culto dos deuses a luz do sol e todas as luzes...
ninguém podia escalar o monte nem quebrar as cadeias de aço grossas como troncos de palmeira, porque o ciúme dos deuses tinha desencadeado a sua cólera mais feroz...
longo tempo o abutre negro voou sobre o rochedo...
e eu, na planície, impotente, assistia, cheio de pavor e de confusão àquele lento voo circular que se ia apertando e baixando cada vez mais...
até que o abutre negro se precipitou e desapareceu da minha vista...
então caí ao chão, e apertei a cabeça nos braços para não ouvir os gritos dela;
mas ela não gritou, porque era mais valente que os abutres e todos os deuses...

António Neto

quarta-feira, 14 de novembro de 2012

Tarde de sábado

esta tarde, mar deserto mar parado mar azul
e os pássaros pousados nas canoas.
quem me disse que esta dor é que era vida?
quem falou que este mar é que era o meu?

tarde de sábado. carregadores parados.
carregadores no cais olhando o mar.
quem lhes falou na beleza desta tarde
quem lhes disse do descanso apetecido?

e do outro lado em mim é tarde
e luz assim, difusamente. meu companheiro, ao lado,
também tem toda a cor e toda a luz deste momento.
meu companheiro, ao lado
é como a tarde e o mar - simples e calmo.

quem lhes falou na beleza desta tarde? tão só
e a inquietação e longe o amor e o sonho... tão sós
tudo descansa em nossas mãos caídas!

quem nos disse (quem foi?) o poeta desta tarde
em frente ao mar, em frente ao mar?...

Mário António

segunda-feira, 12 de novembro de 2012

Baila-baila

meus versos perdidos...
meus versos achados...
vão uns, vêm outros...,
e esses se vão
de novo, enganados.

são versos perdidos...
são versos achados...

(meu deus, fui sincera?
se o não fui, quisera!)

e os versos são meus,
bem meus, porque não?...
só não sei dizer
quando são perdidos,
ou quando não são...

e assim, nos bailados
do rumo-sem fim,
eu vou-os tecendo...

levando-os... trazendo-os...
em busca de mim!...

Alda Lara

sexta-feira, 9 de novembro de 2012

Ouvindo Ella Fitzgerald


noite calma e pacífica. Tão velha
de milénios, porém sempre nova e única.
certamente que lá fora, na túnica
inconsútil, rebrilha uma centelha

da minha insólita estrela. (é tão fumo
já, na memória fria…). Aqui, joga-se,
enquanto, Ella, pastosa e doce, afoga-se
em nós. É assim, meu caro, teu rumo

na vida. E é bela! Conquistada! A prumo!
com o sol… no horizonte prometido…
e seca a tua fonte? – Sem sentido

seria, se de linfas mortas fosse…
É fervente, acre, com teu sangue e sumo
de fel? – É tua! Por isso te é doce

António Cardoso

quarta-feira, 7 de novembro de 2012

Viagem

preparei-te na pedra da casa
asas do pássaro kalulu
com pedaços de árvores destroçadas pelos raios
e resina quente.
chamei a metade gémea do espírito
para te passar remédios
da cabeça até aos pés.

no fundo de meu corpo perfeito
escondi
pedaços de argila e feitiços fortes.

em cada uma das doze cabaças da origem
deitei o vinho dos votos
um pano novo da costa
três missangas azuis
e cera da colmeia menor.

todos os dias conservei aceso o fogo sagrado
na hora dos fantasmas
o vento diz-me a tua voz
é a voz das viagens
sem regresso.

Paula Tavares

segunda-feira, 5 de novembro de 2012

Um lugar

era um lugar no telhado da cidade
com
senhoras de olhos calmos
e moscas gordas.
um sino abençoou o silêncio.
uma nuvem roçou a igreja
cumprimentando árvores
velhos e
pássaros.
era um lugar onde as sombras
se afogam - náufragas
e regressavam ao mundo em silêncio - sobreviventes
dali
as pessoas emprestavam os pés às pombas
e elas roçavam os telhados
para cumprimentar as casas.
certa manhã
ali sentado
ouvi o sino falar.
não decifrei o murmúrio
[não tenho o dom da quietude]
mas embebi-me do essencial:
aquele era também um deslugar
- chão apropriado para repousar os dedos
e esperar uma formiga passar;
esperar a mordidela também
sabendo-me vivo
em corpo de sangue.

Ondjaki