sexta-feira, 5 de outubro de 2012

Uma árvore no Zaire

I
uma árvore, no zaire
recorta-se na luz que a tarde inverte e ascende
num derradeiro esforço de energia.

recupera-se, agreste
da rede percutiva que a cercou.

concentra-se na fibra do seu cerne.
mineraliza a glandular estrutura, impõe relevo ao corpo que 
                                                      a sustém, imobiliza o porte:
dedilha as cordas tensas que o silêncio oferece.

assume do granito a lisa exposição.
a face indecifrável de uma força
contida pela excessiva velocidade.

reordenando o espaço que a contém
reduz o movimento aqui, neste lugar, ao debruçar dos corpos
                                                                  na própria identidade.

uma árvore
no zaire
amadurece os inviáveis corações de ardor meridional com 
                                                                           que anoitece.

II
porque se habita um espaço preenchido pelo olhar dos vivos
suspenso na memória de envolvidos vultos
e o peso da idade ascende em cinza e pó
a exigir um rigoroso gume que lhe fenda a cor

e a combustão dos actos e dos corpos
liberta o odor da carne em labareda fátua

- a exacta dimensão que a noite recupera - 

sustém-se o tempo aqui
na unidade medular das formas

e nem o espaço se propõe distância
além deste contorno de erosões.

III
de casas preservadas na infância
eis o que eu sei das coisas, para além do tempo:

organizam o porte e a trajectória
na consentida face do silêncio.
petrificam-se mansas, no interior da pedra
e o abandono é nelas, já vencido
a hesitação que habita as coisas móveis.

assim se lhes constrói a face
e amadurece
uma presença alheia que as revela.

IV
o que há aqui
é ter-se a justa percepção do espaço
e as importantes coisas que o sustém:

o exacto norte que o temor encerra;
a votiva escravidão que o mar inspira;
o leste e o som remoto de uma extinta glória;
 o sul magnético
e a festa que anuncia.

Ruy Duarte de Carvalho

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