domingo, 14 de outubro de 2012

HENRIQUE ABRANCHES



(…)
Assim falou Osimanha, o mineiro milagroso, naquela tarde que o Povo de todo o Império soube e nunca mais esqueceu. Falou com o braço levantado, como uma árvore plantada no alto do rochedo, segurando na mão o machado de gala destinado a presentear o Rei do vasto Império. O ferro azul do machado embutido de filamentos de cobre vermelho, eternizando um casamento antiquíssimo que se faz no seio da própria terra, mantinha o silêncio em toda a cidade mineira. Os operários pasmavam e sentiam-se poderosos como a criança que acaba de ser circuncidada. Os Mestres entravam em pânico com a violência das pancadas do seu próprio coração como se ali houvesse uma forja diabólica de Morte.
Só então a voz juvenil do mineiro Tamira ecoou pela base da montanha, como um sussurro grosso de uma nova linha de água:
- Não é nossa cidade a maior cidade de toda a terra Ambo? Não é o nosso trabalho o mais nobre e o mais rico trabalho de todo o Império? Não é ele a causa de tão grandes riquezas que habitam os Eumbos dos Mwatas? Como pode ser feita a guerra sem o trabalho dos ferreiros? Como podem as lavras receber a semente sem as enxadas que saíram das nossas mãos? Porque não ficamos então na cidade da Mupa ao apelo de Osimanha que é o apelo do ferro?
- Fiquemos! Fiquemos! – clamaram os operários num coral de timbre metálico, como o que soa diariamente na forja.
- Porque não ficaremos pelas chanas que rodeiam a Mupa? – disse ainda o mineiro Tamira. – Porque não ficaremos pelas encostas da montanha, nós que somos os verdadeiros Senhores da Mupa, nós que somos os incontestados donos do ferro?
E o coral inigualável de timbre metálico ressoou pela encosta abaixo:
- Fiquemos! Fiquemos!
E com o encantamento de ficar ninguém viu como os guardas da escolta que acompanha a caravana, em virtude, dizem, dos ambiciosos vizinhos, deslocaram-se pouco a pouco por detrás de toda a gente. Mas todos viram como Osimanha agitou sua mão que empunhava o machado num gesto ritual, e todos ouviram Osimanha clamar do alto do seu inconcebível pedestal:
  “A vós espíritos antigos do Oriente e a vós subtis espíritos do Ocidente, a vós todos do Reino Tenebroso e a ti também, meu Pai, de corpo esguio e de ideias penetrantes! Eis o machado que abre sulcos profundos na carne daqueles que sofrem e faz brotar o sangue como uma nascente de dor… É esta a arma com que lutei nas terras do Massaka, ferindo eestralhaçando a carne inocente daquele povo, violando a liberdade ainda ingénua de Kalihasnga e espalhando o pesar em casa da oleira”
(…)

Sem comentários: