segunda-feira, 22 de outubro de 2012

"Guerra e paz"

alguém veio semear ódio
no mesmo chão, na mesma anhara,
onde eu, criança, plantara
amor.

quem empapou de sangue fratricida
este solo, onde a dor domina e avança,
que um dia, ao sol, ao vento,
eu regara com suor e risos de esperança
e com o chichi do meu descaramento?

(acaso as acácias rubras
hão-de florir mais rubras?
renasceremos mais puros e mais fortes
das cinzas dos mortos?
juntar-se-ão no mesmo abraço
da redentora morte
os meninos que nunca tinham tido a sorte
de se abraçar em vida?)

não quero mais ouvir as notícias de guerra,
que povoam de pavor
o mundo de menino
sobressaltado dentro do meu seio.
eu apenas anseio novamente escutar,
vindos do céu ou do mar,
missossos ancestrais da minha terra,
que a minha avó ximinha me contava.

apaguem-me a visão desta dantesca lava
incendiando as sanzalas e as gentes,
como fogo do inferno!
ah, não quero, não quero este batuque bélico,
trágica orquestração de canhões e espingardas!
dêem-me o meu batuque, antigo e eterno,
das marimbas, quissanges, puítas e dicanzas,
trazendo em nome da paz
o recado das velhas noites
as novas madrugadas.


Geraldo Bessa Victor

1 comentário:

Antonio Cabral Filho disse...

Quero expressar meus parabens para com este blog, pois foi através dele que comecei a "seguir" escritores do continente africano, e, muito me contempla pela sua diversidade. Gostaria de convidar tanto editores como leitores para visitar o meu http://letrastaquarenses.blogspot.com.br, onde procuro, dentro das minhas limitações, expor um pouco da literatura brasileira recente. Felicito-os todos, abraços. Antonio Cabral Filho, Rio de Janeiro/Brasil.