domingo, 28 de outubro de 2012

sexta-feira, 26 de outubro de 2012

Cansaços


não é o vento que me cansa
baloiçando
o verde louro da savana
mas o tempo…
o tempo espreguiçando
sem pressas
a louca eternidade
assobiando macerados
e dolentes cansaços.

Namibiano Ferreira

quarta-feira, 24 de outubro de 2012

Renúncia


entorno os olhos
neste dia longo de renúncia
e vejo para além da vida…
acaricio os crepes que me vestem
a alma dolorida
e vejo para além da morte…

o sonho escorre sobre mim
como água de chuva
que os meus dedos não prendem…

estou fria e distante
como uma estátua antiga
num jardim…

do sonho estou viúva
e viúva estou… de mim…

Amélia Veiga

segunda-feira, 22 de outubro de 2012

"Guerra e paz"

alguém veio semear ódio
no mesmo chão, na mesma anhara,
onde eu, criança, plantara
amor.

quem empapou de sangue fratricida
este solo, onde a dor domina e avança,
que um dia, ao sol, ao vento,
eu regara com suor e risos de esperança
e com o chichi do meu descaramento?

(acaso as acácias rubras
hão-de florir mais rubras?
renasceremos mais puros e mais fortes
das cinzas dos mortos?
juntar-se-ão no mesmo abraço
da redentora morte
os meninos que nunca tinham tido a sorte
de se abraçar em vida?)

não quero mais ouvir as notícias de guerra,
que povoam de pavor
o mundo de menino
sobressaltado dentro do meu seio.
eu apenas anseio novamente escutar,
vindos do céu ou do mar,
missossos ancestrais da minha terra,
que a minha avó ximinha me contava.

apaguem-me a visão desta dantesca lava
incendiando as sanzalas e as gentes,
como fogo do inferno!
ah, não quero, não quero este batuque bélico,
trágica orquestração de canhões e espingardas!
dêem-me o meu batuque, antigo e eterno,
das marimbas, quissanges, puítas e dicanzas,
trazendo em nome da paz
o recado das velhas noites
as novas madrugadas.


Geraldo Bessa Victor

domingo, 21 de outubro de 2012

sexta-feira, 19 de outubro de 2012

Purificação da ilha

entrega-nos o teu destino de fim de semana
nos braços circulares do mungolongolo 
nas sombras dos homens sob os kitelembes

entrega-nos o ventre branco das tuas praias
onde a gestação dos passos se interrompe
e os rituais de iniciação apodrecem

vamos dar-te o fogo do sol antigo!

libertar o teu nome de sal
dos cristais que não se formaram do teu chão
o teu corpo violado do exotismo das palmeiras
que iludem os lamentos das sereias

vamos cingir-te com panos de lemba
e expor os novos crânios que renascem
ao vento rijo das calemas

vamos fazer das tuas mortes a vida ausente

vamos dar-te o fogo do sol antigo!

Arnaldo Santos

quarta-feira, 17 de outubro de 2012

Prece

aqui te peço senhora da nazaré
que nos valeste na batalha de ambuíla
que conservas luanda como é...

com os negritos apregoando doce
e os panos das pretas quitandeiras
a recortar-se vivos nas esquinas,
como as sombras chinesas verdadeiras...

que conservas o ritmo sempre morno
da visa sonolenta dos musseques,
que haja quissanges sempre soluçando
e lavadeiras passeando com moleques...

que guardes até quando eu voltar
os alegres pregões sem vaidade
da castanha de cajú tão gostosa
como os velhos mexericos na cidade...

aqui te peço senhora que conserves,
o cheiro a poesia e a óleo de palma,
a tabaco, a asfalto e a peixe
a jornal, a cerveja e a calma...

aqui te peço senhora da nazaré
que nos valeste na batalha de ambuíla
que conserves luanda como é...

Neves e Sousa

segunda-feira, 15 de outubro de 2012

Tempo de amar

uma hora breve, uma só, meu amor, e
não importa a morte absurda a rondar,
 não importa, agora,
uma hora breve, uma só, meu amor.

a fome a trair o sol desta cidade,
o clamor em vaga alastrando
não importam, agora. não importa.
não importa o ódio no olhar turvo.
não importa, agora.

uma hora breve, uma só, meu amor, e
não importa a mentira torpe a corroer,
não importa, agora,
uma hora breve, uma só, meu amor.

o inverno longo a negar a colheita:
cinzas, só, o lume apagado,
não importam agora. não importa.
não importa a navalha que se abriu.
não importa, agora.

uma hora breve, uma só, meu amor...
importa, sim, meu amor, importa sim,
agora o que o teu corpo promete
nesta hora breve, a última, meu amor,
antes da noite, finda esta hora breve,
ser
viscoso,
negro, 
dilúvio desesperado!

Tomaz Kim

domingo, 14 de outubro de 2012

HENRIQUE ABRANCHES



(…)
Assim falou Osimanha, o mineiro milagroso, naquela tarde que o Povo de todo o Império soube e nunca mais esqueceu. Falou com o braço levantado, como uma árvore plantada no alto do rochedo, segurando na mão o machado de gala destinado a presentear o Rei do vasto Império. O ferro azul do machado embutido de filamentos de cobre vermelho, eternizando um casamento antiquíssimo que se faz no seio da própria terra, mantinha o silêncio em toda a cidade mineira. Os operários pasmavam e sentiam-se poderosos como a criança que acaba de ser circuncidada. Os Mestres entravam em pânico com a violência das pancadas do seu próprio coração como se ali houvesse uma forja diabólica de Morte.
Só então a voz juvenil do mineiro Tamira ecoou pela base da montanha, como um sussurro grosso de uma nova linha de água:
- Não é nossa cidade a maior cidade de toda a terra Ambo? Não é o nosso trabalho o mais nobre e o mais rico trabalho de todo o Império? Não é ele a causa de tão grandes riquezas que habitam os Eumbos dos Mwatas? Como pode ser feita a guerra sem o trabalho dos ferreiros? Como podem as lavras receber a semente sem as enxadas que saíram das nossas mãos? Porque não ficamos então na cidade da Mupa ao apelo de Osimanha que é o apelo do ferro?
- Fiquemos! Fiquemos! – clamaram os operários num coral de timbre metálico, como o que soa diariamente na forja.
- Porque não ficaremos pelas chanas que rodeiam a Mupa? – disse ainda o mineiro Tamira. – Porque não ficaremos pelas encostas da montanha, nós que somos os verdadeiros Senhores da Mupa, nós que somos os incontestados donos do ferro?
E o coral inigualável de timbre metálico ressoou pela encosta abaixo:
- Fiquemos! Fiquemos!
E com o encantamento de ficar ninguém viu como os guardas da escolta que acompanha a caravana, em virtude, dizem, dos ambiciosos vizinhos, deslocaram-se pouco a pouco por detrás de toda a gente. Mas todos viram como Osimanha agitou sua mão que empunhava o machado num gesto ritual, e todos ouviram Osimanha clamar do alto do seu inconcebível pedestal:
  “A vós espíritos antigos do Oriente e a vós subtis espíritos do Ocidente, a vós todos do Reino Tenebroso e a ti também, meu Pai, de corpo esguio e de ideias penetrantes! Eis o machado que abre sulcos profundos na carne daqueles que sofrem e faz brotar o sangue como uma nascente de dor… É esta a arma com que lutei nas terras do Massaka, ferindo eestralhaçando a carne inocente daquele povo, violando a liberdade ainda ingénua de Kalihasnga e espalhando o pesar em casa da oleira”
(…)

sexta-feira, 12 de outubro de 2012

O período feminino

estás húmida e m'esperas
de nascentes insurrectas
olho dois espelhos em confronto
dois rios me afundam
porém posso respirar no moinho
de teu ventre
pura ventania velocidade absoluta
da paciência
dormida força teu beijo vulgar
absoluta incorporação
linfa e humores, o sangue
monólogo em ciclo de chuva.

João Tala

quarta-feira, 10 de outubro de 2012

Os rios riem

os idos e tombados rio rios rio
o conto
dos números
que embebedaram tabuadas
rios
motivo dos dongos voltarem nossos
nos percursos da história

idos e tombados os rios riem
na água
sua força o firmamento da áfrica

manhãs ngolas renascendo
eis que os pássaros de novo cantam nossas as árvores
e da guerra a ânsia de nos suspirarem
os ventos sopram nossos os ventos que ventam
(ventam) árvores
bongas muxitos
hora nossa

Jorge Macedo

segunda-feira, 8 de outubro de 2012

Regresso

para Alda

um dia 
quando voltares,
não mais encontrarás à tua espera
a nossa casinha de adobe
da rua principal.

quando voltares 
da europa, irmã,
hás-de ver ainda
como a cidade mudou...

(lembras-te das promessas
que fizemos?)

quando voltares
não mais encontrarás poesia
no quintalão do zé guerra
agora transformado
atravessado
assassinado
por uma avenida transversal.

quando voltares
só terás
como deixaste
o mercado municipal.

não mais o candeeiro 
nem a velha lavadeira.
o frederico
esse agora é ointor
do morais pontes.

nem as acácias rubras
hão-de florir
para ti
quando voltares.

"lembras-te da palmeira
do quintal?
foi abaixo com duas machadadas
no tronco..."

um dia
quando voltares,
não mais encontrarás 
a benguela que conheceste
menina ainda
e que aprendeste a amar.

o velho joão correia?
já morreu...

quando voltares, afinal,
não mais encontrarás à tua espera
a nossa casinha de adobe
da rua principal.

Ernesto Lara Filho

domingo, 7 de outubro de 2012

sexta-feira, 5 de outubro de 2012

Uma árvore no Zaire

I
uma árvore, no zaire
recorta-se na luz que a tarde inverte e ascende
num derradeiro esforço de energia.

recupera-se, agreste
da rede percutiva que a cercou.

concentra-se na fibra do seu cerne.
mineraliza a glandular estrutura, impõe relevo ao corpo que 
                                                      a sustém, imobiliza o porte:
dedilha as cordas tensas que o silêncio oferece.

assume do granito a lisa exposição.
a face indecifrável de uma força
contida pela excessiva velocidade.

reordenando o espaço que a contém
reduz o movimento aqui, neste lugar, ao debruçar dos corpos
                                                                  na própria identidade.

uma árvore
no zaire
amadurece os inviáveis corações de ardor meridional com 
                                                                           que anoitece.

II
porque se habita um espaço preenchido pelo olhar dos vivos
suspenso na memória de envolvidos vultos
e o peso da idade ascende em cinza e pó
a exigir um rigoroso gume que lhe fenda a cor

e a combustão dos actos e dos corpos
liberta o odor da carne em labareda fátua

- a exacta dimensão que a noite recupera - 

sustém-se o tempo aqui
na unidade medular das formas

e nem o espaço se propõe distância
além deste contorno de erosões.

III
de casas preservadas na infância
eis o que eu sei das coisas, para além do tempo:

organizam o porte e a trajectória
na consentida face do silêncio.
petrificam-se mansas, no interior da pedra
e o abandono é nelas, já vencido
a hesitação que habita as coisas móveis.

assim se lhes constrói a face
e amadurece
uma presença alheia que as revela.

IV
o que há aqui
é ter-se a justa percepção do espaço
e as importantes coisas que o sustém:

o exacto norte que o temor encerra;
a votiva escravidão que o mar inspira;
o leste e o som remoto de uma extinta glória;
 o sul magnético
e a festa que anuncia.

Ruy Duarte de Carvalho

quarta-feira, 3 de outubro de 2012

Poema do meu dia

no frontispício
porta aberta para o escuro
da noite sem noite
do meu dia

outra que passou
sorrindo uma boca 
de dentes feitos raros
nas gengivas doentes
da cárie dos dentes gastos

estrangeiro na forma
exótico nas sensações
viam em mim o mundo
- estranho e longuidistante -
do mistério dos trópicos

sorri um sorriso enleado
e tímido na exteriorização
fitei o solo dos meus passos
buscando libertação
na sisudez do alheamento

senti nos nervos tensos
o poema do meu dia
escrito nos cerrados lábios
dos pensamentos em desencontro
nas mentes que me fitam

Ruy Burity da Silva

segunda-feira, 1 de outubro de 2012

Menino Carnaval

como vocês batem vossos pés
meninos
como vocês riem vosso riso
de hoje
como vocês fazem das latas
violinos
e me dão inveja do tempo
depois
como vocês apitam na nossa
avenida
esfrangalhando um deus
de mil planos
como que rodam na mais
que colorida
ridente de gozar
os karkamanos
como de pôr tambor
na mão da vida
um carnaval marcando tom
na história
ora aí está o nosso
novo carnaval
o grande carnaval dos mais miúdos
dos monas ganhadores
desta vitória!

Manuel Rui