sexta-feira, 28 de setembro de 2012

Que é S. tomé

I
quatro anos de contrato
com vinte anos de roça.
cabelo rapado
blusa de branco
dinheiro no bolso
calção e boné

eu fui s. tomé!
calção e boné
boné e calção
cabelo rapado

dinheiro na mão...

agora então volto,
mas volto outra vez
à terra que é nossa.
acabou-se o contrato
dos anos de roça.

eu vi s. tomé!

cuidado com o branco
que anda por lá...
não sejas roubado.
cuidado! cuidado!

dinheiro de roça
ganhaste-o, té dá
galinhas... e bois...
e terras... depois
já tiras de graça
o milho da fuba
o leite, a jinguba
e bebes cachaça.

eh! vai descansado,
dinheiro guardado
no bolso da blusa.

que é s. tomé!

cabelo rapado
blusa de branco
dinheiro no bolso
calção e boné.

II
este mente, aquele mente
outro mente... tudo igual
o sítio da minha embala
aonde fica afinal?

a terra que é nossa cheira
e pelo cheiro se sente
a minha boca não fala
a língua da minha gente.

com vinte anos de contrato
nas roças de s. tomé
só fiz quatro
voltei à terra que é minha.
é minha? é ou não é?

vai a rusga, passa a rusga
em noites de fim do mundo.
quem não ficou apanhado?
vai o sono, vem o sono
vai ó sono
quero ficar acordado
no meio da outra gente
lá ia naquela corda
mas, acordei de repente.

quero ficar acordado.

onde está o meu dinheiro,
onde está o meu calção
meu calção e meu boné?
o meu dinheiro arranjado
nas roças de s. tomé?

vou comprar com o dinheiro
sobrado da minha mão
tudo quanto a gente come:
trinta vacas de fome,
galinhas... de papelão.

vou trabalhar nesta lavra
em terra que dizem nossa
quatro anos de contrato
e vinte anos de roça.

eu fui s. tomé!

cabelo rapado
blusa de branco
dimheiro no bolso
calção e boné.

Aiué!

Alexandre Dáskalos


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