sexta-feira, 24 de agosto de 2012

Quando os meus irmãos voltarem

quando a minha mãe vier
e trouxer
os meus irmãos
iremos todos viver
para a estrada de catete.

havemos de construir com as nossas mãos
uma casita de adobe
bonita,
onde caberemos todos.
será vermelha,
toda coberta de capim,

vai ser fácil amassar
porque o barro já está tinto
de tanto, de tanto sangue
há tanto tempo a correr.

terá também um jardim
com rosas e buganvílias.

vai ser fácil
pois mesmo que a chuva tarde
serão regadas
com lágrimas caídas
dos olhos de todos nós.

quando a minha mãe vier
e trouxer
os meus irmãos
iremos todos viver 
para a estrada de catete.

e jantaremos mufete...
e beberemos quissângua
que vos virá do bié.

e dormiremos na esteira
embalados pela brisa
que soprará no musseque.
descansaremos
do longo caminho andado:

descansaremos
p'ra mais longa caminhada...

ah! quando a minha mãe vier
e trouxer os meus irmãos
será pequena a nossa casa bonita 

(que eu tenho milhões de irmãos!)

quando a minha mãe vier
e trouxer
os meus irmãos,
iremos varrer
as cinzas dos que partiram à frente,
e cantar, 
espalhar
a nossa alegria
pelas vertentes das serras,
pelas areias das dambas,
pelos vales,
pelos montes,
pela beirinha dos rios
junto às fontes.

havemos decantar!...

ah! quando a minha mãe vier
e trouxer os meus irmãos,
arderá uma fogueira
à beira
de cada trilho
e o brilho
de cada estrela
será maior...

mãezinha, ouve o teu filho.

não terdes, mãe,
vem depressa...

Aires de Almeida Santos

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