sexta-feira, 31 de agosto de 2012

A lagartixa frustrada


um dia
a lagartixa
quis ser dinossauro

convencida
saltou pra rua
montada em blindados
pra disfarçar a sua insignificância

tentou mobilizar as formigas
que seguiam
atarefadas
pro trabalho

“ó pobre e reles lagartixa
condenada
à fria solidão
das paredes enormes e nuas
tu não sabes que os dinossauros
são fósseis
pré-históricos”

João Melo

quarta-feira, 29 de agosto de 2012

Turismo I

jovens muílas dançam
batem que batem palmas.
em brevas cantos lançam
até nós, suas almas.

vibram ingenuamente
missangas nos pés delas.
para trás, para frente:
são todas ágeis, belas.

brilham nas suas tranças
ataches de latão.
belas, negras esperanças
quem vai dizer que não?

jovens muílas dançam
estendendo as palmas.
nelas, turistas lançam
tostões às suas almas.

Mário António

segunda-feira, 27 de agosto de 2012

Cântico a Cabo Verde

quem foi que semeou estes pedaços
de áfrica no mar?
alguém que desejou fundir áfrica e europa
no mesmo sonho, no mesmo abraço,
na mesma voz, no mesmo olhar...

cabo verde, cabo verde,
arquipelago das ilhas encantadas
no meio do mar atlântico
por mãos sagradas...
vem do fundo das ilhas esse cântico
que flui dentro de nós nas noites de luar!

são vicente, santiago,
santo antão, fogo, brava...
a velha canção escrava,
sepultada nas ilhas outrora,
ressuscita liberta nas mornas.
(saudade minha, porque te adornas
com o pranto das lendas que trago
no meu lirismo de agora?)

cabo verde, cabo verde,
terra onde o amor se perde
e se redime na paixão ardente...
- vou cantar as tuas mornas,
na saudade da gente
e de todos os seres
que vivem nas tuas ilhas,
onde em sonhos eu sou...
e quero amar em ti as formosas mulheres
nascidas do teu ventre, as tuas filhas
encantadas que só o amor desencantou.

cabo verde, cabo verde,
ilha das ilhas prenhes de beleza e de dor,
paraíso crioulo que se perde
e se redime no amor!

Geraldo Bessa Victor

domingo, 26 de agosto de 2012

JORGE MACEDO



(…)
Tudo que era bem para o povo os colonos punham na distância a onde pra chegar era  preciso rebentar pés descalços  até sangrar a carne fina das crianças morrendo no obscurantismo a sede dos livros. Depois crescermos entre milhões um ou outro conseguia fugir o contrato nas páginas do quinto ano do liceu.
Tudo o quer era bem para o povo angolano os colonos punham em distante distância… distância que a gente por mais que um dia e noite toda a vida andava ninguém chegava lá.
Na resposta do mahezo que vizinho Janita veio-lhe dar mãe Jola disse:
- Mano, a gente precisa só mesmo hoje hoje demanhã demanhã te viram você acordaste… Agora dia você mesmo dizer tem ainda alegria. Nada, mano. Vida do patrício é só mesmo você sai na malamba… entra na malamba. Café que estamos plantar na força de passar dia todo com copito de caporroto mais nada… Você às vezes não quer mais ficar a dever fuba e peixe na taberna deles para não te roubarem todas colheita toda a vida mas vizinho, quem que na pobreza tanta do povo pode fazer capricho na precisão até já mesmo lata para ir no rio você tem de comprar neles… até os anos no cabelo branco te comerem as forças… você mesmo vizinho não estás ver mesmo no povo os mais velho setenta ano que andaram nas lavras… afinal o colono que não cultivou fica só no balcão a nos xingar… nossos sacos de milho… de café… de jinguba ficaram dele… eles não é que são os ricos e nósque cultivamos sempre pobre… pobre… póóóbere.
Cachimbando seu cachimbo antigo vizinho Janota o mahezu da vizinha cortou:
- Mahezu, ngana! – Mana, venho te pidir duzentos escudos faz favor. Amanhã, se eu não vou pagar imposto, só chefe vai mandar me pôr na cadeia. Mãe Jola batendo palma da mão na testa malambou esta malamba:
- Eu já pra pôr filho na escola vendi cabra único que me dá de comer… mano não me faz chorar.
Vizinho Janota tanga na bunda e quimono roto no peto e na dikinda pra lembrar camisa começou correr os caminhos todos do bairro a fim de livrar prisão…
(…)

sexta-feira, 24 de agosto de 2012

Quando os meus irmãos voltarem

quando a minha mãe vier
e trouxer
os meus irmãos
iremos todos viver
para a estrada de catete.

havemos de construir com as nossas mãos
uma casita de adobe
bonita,
onde caberemos todos.
será vermelha,
toda coberta de capim,

vai ser fácil amassar
porque o barro já está tinto
de tanto, de tanto sangue
há tanto tempo a correr.

terá também um jardim
com rosas e buganvílias.

vai ser fácil
pois mesmo que a chuva tarde
serão regadas
com lágrimas caídas
dos olhos de todos nós.

quando a minha mãe vier
e trouxer
os meus irmãos
iremos todos viver 
para a estrada de catete.

e jantaremos mufete...
e beberemos quissângua
que vos virá do bié.

e dormiremos na esteira
embalados pela brisa
que soprará no musseque.
descansaremos
do longo caminho andado:

descansaremos
p'ra mais longa caminhada...

ah! quando a minha mãe vier
e trouxer os meus irmãos
será pequena a nossa casa bonita 

(que eu tenho milhões de irmãos!)

quando a minha mãe vier
e trouxer
os meus irmãos,
iremos varrer
as cinzas dos que partiram à frente,
e cantar, 
espalhar
a nossa alegria
pelas vertentes das serras,
pelas areias das dambas,
pelos vales,
pelos montes,
pela beirinha dos rios
junto às fontes.

havemos decantar!...

ah! quando a minha mãe vier
e trouxer os meus irmãos,
arderá uma fogueira
à beira
de cada trilho
e o brilho
de cada estrela
será maior...

mãezinha, ouve o teu filho.

não terdes, mãe,
vem depressa...

Aires de Almeida Santos

quarta-feira, 22 de agosto de 2012

Esta pergunta

esta pergunta obsecante,
torturando,
deixando
os nervos em chama;
esta pergunta - 
o nosso fim.

esta pergunta obsecante,
lacerando,
deixando
o cérebro febril;
esta pergunta - 
a nossa cruz.

esta pergunta obsecante,
fustigando,
deixando
a alma doente;
esta pergunta - 
o nosso X.

esta pergunta obsecante,
queimando...
esta pergunta -
de onde, para onde!?

Tomaz Kim

segunda-feira, 20 de agosto de 2012

Estrangeiro

estrangeiro,
teus passos alargam o fosso
em volta do cercado da casa antiga
está aceso o fogo
nos sítios do costume
e tu moves-te por dentro do frio

estrangeiro,
o pano branco na tua cabeça
annncia a morte
de minha gémea
 meu irmão meu noivo
o filho muito amado de sua mãe
o que portava no peito
o colar de missangas
e fios do meu cabelo

estrangeiro,
a tua voz
é um ruído surdo
um murmúrio atento

estrangeiro, 
com a tua presença
a minha dança não correu
a manteiga passou
o leite cresceu azedo pelo chão
a vaca mansa de estrela na testa
não entrou no sambo
a bezerra pequena varreu a noite de gritos

estrangeiro
ontem não nasceu ninguém no chumbo
e a lua estava alta e nova
o velho que sofre
não conseguiu morrer

estrangeiro,
afasta de mim
teus passos perdidos
e a maldição.

Paula Tavares

domingo, 19 de agosto de 2012

sexta-feira, 17 de agosto de 2012

A Paul Eluard


(na sua morte)

onde o poeta não havia já
foi quando em nós se gritou finalmente
que  não estávamos sós…


entre nós e as vossas mãos caídas,
- ele! –
por quem os firmamentos
se fizeram de repente
lúcidos como ventos…
por quem as estrelas cresceram
belas e eternas,
no horizonte das horas,
como luas antigas,
vestindo os esqueletos
de humanas formas resumidas…
ele,
por quem, só as crianças
carregaram espingardas
nos jogos brinquedos de guerra,
e as trincheiras
permaneceram para sempre adormecidas
sobre os francos estivais
da terra…
ele,
por quem, nunca mais
estaremos sós…
e buscando-o ainda
ao longo dos longos dias inteiros,
só sabemos falar de amor,
aos companheiros…

Alda Lara

quarta-feira, 15 de agosto de 2012

Desnoções & algibeiras

para ser grilo
há que ter algibeiras
onde também caibam silêncios.
ser sorrateiro
espreitando entre dois fios de relva.
saber fazer uma teia invisível
onde o infinito se armadilhe.
encarar o universo com
demasiada intimidade
- a modos que quintal.
saber:
que as estrelas encarecem
de carinho
e brilham para mais desanonimato;
sonetar com roncos de garganta
desminando rebentamentos no coração.
para ser grilo
há que ter desnoções.
viver que:
há só uma distanciaçãozinha
entre apalmilhar um quintal
e acomodar estrelas num abraço.

Ondjaki

segunda-feira, 13 de agosto de 2012

Poema no vento e no tempo


vivendo na nortada do vento
tempos-sul
persistem e florescem
lianas
entrançando a alma
com odores-vento
perfumes-tempo
desabrochando meninos
risos de welwitschias.

e aqui, neste corropio europeu,
vou fugindo
ousando, ainda, sonhar
o luando-prata
leve flutuando… carvão.

Namibiano Ferreira